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28/04/2015

O DIA EM QUE CAIU DO TRONO




Um dia disse ao meu filho que ele era capaz de fazer tudo. Foi já há algum tempo. Era ele mais pequenino ainda. Não me lembro bem o que era, mas ele estava a fazer qualquer coisa e disse "não consigo". Achei que era a minha deixa. Disse-lhe olhos nos olhos "tu consegues tudo. Nunca te esqueças disso". Esqueci-me foi que ele tinha 2 anos. Cá metáforas ainda não pegam nesta idade. Esqueci-me que os miúdos nesta idade levam as coisas um pouco à letra. E que um gajo tem de explicar tudo bem explicadinho senão dá merda. E assim foi. Não expliquei e deu merda.

Comecei por ensinar o meu filho a andar de skate com 2 anos. Desde muito cedo ele adorou. E começou a ganhar-lhe o jeito. Fui andando com ele, ensinando o que deve ou não fazer, o que pode ou não fazer. Ele foi evoluindo. Agora com 4 anos, chegou a uma fase que eu achei que ele devia passar a ter aulas com um professor e outros miúdos. Achei que podia ajudá-lo a desenvolver outras técnicas. Aprender outras coisas. Conhecer outros miúdos. Aprender com os mais velhos. Então começou as aulas. Tem dois professores ex-skaters profissionais. Além de bons skaters, bons professores. Lógico que os colegas na aula são todos mais velhos. É o único com 4 anos. E naturalmente tem as limitações inerentes à idade. Sempre que a aula começa, está com a moral toda. Motivado. Orgulhoso. Divertido. À medida que a aula vai avançando começa a esmorecer. Até que desiste a meio. Apesar do meu filho ser muito bom no skate para idade dele, apesar de ser capaz de fazer muito mais com um skate do que maioria dos miúdos e das miúdas com 4 anos, apesar de adorar, nas últimas aulas desistiu a meio, Cabeça para baixo, skate a arrastar. Aconteceu não uma, mas duas vezes.

Como não sou parvo, naturalmente nunca mostrei má cara. Nunca me mostrei chateado, nunca me mostrei desiludido, nem triste nem nada disso. Simplesmente perguntava-lhe "queres ir embora filho? de certeza?".
Nunca o obriguei a andar e só ia às aulas quando queria. Até que um dia, sentados em cima dos skates, perguntei: "filho, porque é que não queres estar nas aulas? gostas de lá estar ou não gostas muito?" Ao que ele me responde "gosto mas pensava que era só para fazer o que eu sei".

Ahhhhhhhhh. Toda a festa que eu fazia quando ele conseguia alguma coisa, todas as vezes que lhe disse que ele consegue tudo, todas os gritos que ele era o maior, vieram bater-me à porta. Ali na aula, com os miúdos mais velhos a fazerem mais do que ele é capaz, ele sente-se um underachiever. Incapaz de chegar ao nível dos outros. Nos olhos dele, ele vê todos a andarem muito melhor que ele, a fazerem mais do que ele, incapaz do distanciamento para perceber a diferença de idades, força, anos de experiência que o separam do resto da turma. Por isso ele sente-se incapaz de chegar e estar ao nível dos outros. E por isso acha que já não consegue tudo como eu tantas vezes lhe disse. Que já não é o maior. Sente-se desiludido. E acha que me vai desiludir. Porque na aula ninguém faz a festa que um pai faz. Percebi.

Expliquei-lhe que ele está nas aulas para fazer o que sabe e também para tentar aprender a fazer o que não sabe. Que tentar é fixe. E é divertido. Que ele é o mais pequeno da turma e que por isso não consegue fazer algumas coisas iguais aos outros. Que eu também já fui pequeno. Mas que ele é especial por ser tão pequeno e conseguir estar na turma dos grandes no skate. E que quando for grande vai conseguir fazer igual aos outros. Que para conseguirmos alguma coisa, temos que tentar. Aprender. E tentar.

Parece mentira que eu tenha conversas deste calibre com um miúdo de 4 anos. Mas tenho. E aprendo todos os dias com ele. Como ele certamente aprende comigo. É tão fácil cair na asneira de os iludir demasiado quando os amamos tanto. Fazemos uma festa tremenda de qualquer coisinha. Como se fossem semideuses. Ao ponto deles acreditarem que o são. E daí à desilusão é um instante. Depois é arregaçar as mangas, encher o peito e sentar ao lado deles e explicar o que devia ter sido logo explicado desde início.

Ou não. Talvez isto faça parte. Sei lá eu. Eu também só ando nisto de ser pai há 4 anos. E é a minha primeira vez. Também ando a apanhar bonés. Não sei tudo. Faço o melhor que sei. Vou tentando. E aprendendo. Um gajo tem de elogiar, mas não muito. Um gajo tem de ralhar, mas não muito. Um gajo tem de ensinar, mas não muito. Um gajo tem de exigir, mas não muito. Porra pra isto. Uma coisa é certa. Um gajo tem é de os amar e respeitar. E é muito.

10/02/2015

EU SOU UM ESTUPOR MAS NÃO SÓ


O Kanye West é um estupor é verdade. Mas ser pai às vezes faz de nós um bocadinho menos estupores. Fui não poucas vezes um estupor. Às vezes ainda sou. Mais do que gostaria. Como bom estupor que sou, costumo ser estupor com as pessoas que mais amo. Como boa alma que sou, sinto-me na merda quando o sou. Mas quando o meu filho nasceu alguma coisa mudou dentro de mim. Não sei se acontece sempre, mas comigo aconteceu. Continuo a ser um estupor às vezes, é verdade. Às vezes para quem amo. Mas amo hoje mais e melhor. A minha família, os meus amigos e até quem não conheço. Aos que me querem mal ou não me querem nada, no hard feelings.

Olho para o meu filho e vejo nele o reflexo de quem sou hoje. E quem sou hoje devo-o muito a ele também. É como estar à frente de um espelho com outro espelho. Tenho orgulho na pessoa que ele se está a tornar. Com 4 anos tem nele um capaz emocional de longe maior que os passos que dá. Um coração enorme no corpo de um menino. É um menino que pensa nos outros. Que partilha tudo o que tem. Que ama gratuitamente. Que quando viu a prima a chorar, foi buscar o boneco preferido dele e pôs-lhe ao colo. Sem dizer nada. Um menino que quando caí e desloquei o braço à frente dele, veio a correr para tentar me pôr o ombro no lugar. Um menino que se zanga quando vê alguém fazer mal a um animal, mesmo que seja um peluche. E hoje quando me estava a vestir com um só braço, depois de eu vestir a camisa ele veio junto de mim e sem dizer nada, começou a tentar abotoar-me os botões. Baixei-me e dei-lhe um abraço. Sim às vezes sou estupor. Às vezes para quem mais amo. Mas como diz o Kanye West na música "Only One", não sou perfeito mas sou mais do que os meus erros. E foi isso que vi hoje no meu filho quando ele lutava com o botão, na tentativa de me abotoar a camisa por eu estar com o braço imobilizado. Vi-me como mais do que os meus erros. Porque alguma coisa devo estar a fazer bem. Para ter um filho assim.



* Only One foi escrito pelo Kanye West que é um estupor, mas que conseguiu escrever isto na perspectiva da mãe que já morreu, a olhar para ele e a falar com a filha através dele. Uma ode à paz interior.

Nota. Tem a participação do Paul McCartney nas teclas e na composição. O vídeo é realizado pelo Spike Jonze.

15/12/2014

BIRTHDAY GIRL


É uma das pessoas mais fascinantes que conheço. Tem nela uma irreverência e rebeldia contagiantes e ao mesmo tempo uma aura de ingenuidade como só uma sonhadora pode ter. É o que chamo "sweet and spicy". É poética a rir. Sublime a ouvir. Desconcertante a sorrir.

Teve uma infância feliz mas interrompida por dois abalos que lhe testaram a fé. A morte do pai e da melhor amiga. Aos 10 anos teve de criar lógica no meio do que não tem lógica e se rearranjar do que não tem arranjo.

É uma lutadora e tem nela a fibra de muito poucos. Coragem para enfrentar qualquer desafio excepto animais de penas. Tem nela uma determinação capaz de mover paredes. Lutou por ela e pelo filho durante uma gravidez complicada e de risco. Tem uma fé inabalável na amizade, no amor e na vida. Sabe de música. Mas sabe mesmo. Ela a embalar o nosso filho a cantar "o menino d'oiro" do Zeca Afonso é das minhas coisas preferidas. De sempre.

Apaixonada por tattoos, tem no corpo histórias de vida. É leal aos amigos. Intolerante das falsidades. Mergulha de cabeça numa amizade. E às vezes bate com a cabeça devido à falta de profundidade. Já lhe avisei que tem de ver se tem pé antes de mergulhar. Mas o coração gigante fala mais alto e derrete-se facilmente. Faz a melhor açorda de camarão que já comi. E só por isso já valeu a pena casar com ela.

Diz que se tivesse vivido nos anos 60 talvez não tivesse sobrevivido. Sonha com Fiji. Dança Ramones e Maria Rita com o mesmo charme. Veste um vestido da Prada com a mesma pinta que veste uma t-shirt dos Black Sabbath. Ninguém vai de skate comprar um vestido de alta costura como ela. Foi experimentar e comprar o vestido de noiva sozinha. Uma self made woman. Casou de pés na areia. Comigo. E abrimos o casamento a dançar "Little Wing" do Jimi Hendrix. Hoje é minha mulher. Mãe do meu filho. Amiga incondicional nas marés baixas e nas marés altas. Hoje faz anos. Este ano não tenho vídeo. Por isso ficam alguns dos momentos que fazem dela um ícone nesta casa. Happy birthday baby. And happy wishes.






















22/09/2014

COMEÇA A GANHAR ASAS

Estes dias são os meus preferidos. Aqui faz-se história. Obrigado pelos melhores momentos da minha vida, puto.



Nota. o puto de 3 anos quase 4 a subir o quarter-pipe em alta velocidade enquanto me dá a mão é o meu filho. just saying.

12/05/2014

QUEM É QUE QUER IR VIVER SOZINHO


Quando as pessoas me diziam "eles crescem tão depressa", não estavam a brincar. É que crescem mesmo. Ainda a semana passada dizia à minha mulher "vou ter saudades do miúdo nesta idade". Uma semana depois confirma-se. Tenho saudades de quando o meu filho era criança. É que agora com 3 anos e meio está já em plena adolescência. Tudo começou com a atitude de se fechar no quarto quando lhe chamo a atenção. E culminou esta semana com a seguinte conversa:

Eu_ "filho, ouviste a mãe? não voltas a fazer isso senão ficas de castigo, percebeste?"

Ele_ "Já não vou viver mais com vocês!" [vira as costas, braços cruzados e vai em direcção ao quarto]

Eu, com vontade de rir, mas sem me descoser_ "Não queres viver mais connosco? Então vais viver com quem?"

Ele, cheio de atitude e certeza_ "vou viver só-zinho".

Queres ir viver sozinho? Deixa cá ver:
  • fins-de-semana livres
  • noites descansadas em que durmo pelo menos 7 horas seguidas
  • sexo noutros sítios da casa sem ser na despensa. e sem interrupções
  • programas de televisão que não envolvam dinossauros híbridos, tartarugas mutantes ou monstros felizes
  • saídas à noite, concertos, cinema, jantaradas
  • comer uma refeição em paz sem nos levantarmos 10 vezes, sem dizer a palavra "come" 20 vezes, e sem apanhar metade da comida do chão.
  • abrir o frigorífico e tirar uma fatia de queijo ou presunto sem ser às escondidas
  • comer cajus sem ter de enfiar tudo na boca para ele não ver e pedir também
  • andar de carro sem ter de ouvir as mesmas músicas até à exaustão
  • andar de carro e poder dizer f#$a-se à vontade
  • tomar um duche sem ter alguém a defecar ao mesmo tempo e a dizer "já está"
  • conseguir sentar-me na sanita sem que entrem pelo WC adentro com uma bola e a chutem a 50 cm de mim direito à minha cara
  • dormir um sesta no sofá. sem ser em cima de animais extintos de plástico com chifres
  • andar descalço em casa sem espetar os pés em animais extintos de plástico com chifres
  • nunca mais ver animais extintos de plástico com chifres
Queres ir viver sozinho? Vamos procurar casa. Eu ajudo-te.

19/03/2014

DIÁRIO DE UM EX-LÍDER


Já não escrevia há algum tempo. Tenho andado ocupado. A tentar sobreviver. Eu explico:

Vamos imaginar a minha casa como um território. Um Estado soberano. Eu sou o governo desse território. Governo em coligação. Tenho sido nos últimos anos um governo democrático e civilizado. Atento às necessidades das minorias, tolerante com os manifestantes, respeitador dos direitos humanos. Um governo tipo o da Suécia ou daqueles países que toda a gente admira pelas políticas incríveis que têm, mas para os quais ninguém quer ir viver por causa do frio de rachar e dos dias curtos. Adiante. Tenho sido um desses governos. A minha política da saúde é irrepreensível. Toda e qualquer necessidade é prontamente assegurada e comparticipada na totalidade. A política da educação um sucesso. As melhores escolas, equipamento, fardas, tudo comparticipado a 100%. Política de cultura, artes e lazer do melhor que há. Política do desporto e da juventude sem precedentes. Finanças e tesouraria do mais brando que há. Ninguém paga impostos, não há taxas extraordinárias. Aqui até a alimentação é oferecida. É um país do caraças este do qual eu sou governo. Sou o Banco Mundial, o FMI, o Banco Alimentar, a ONU, a Disneyland, o Comité Olímpico, a Broadway, a Universal Studios e a NASA num só. Tudo a custo zero. Este meu Estado é o paraíso. Aliás, era.
Porque tenho um raio de um anarquista em constante manifestação que conseguiu destabilizar e derrubar o poder. A seguir seguem-se excertos do meu diário enquanto ex-líder deste território que um dia chamei de Casa :

20/02/2014
Hoje pela primeira vez senti alguma instabilidade social. Sinto que há uma voz dissidente que se começa a mobilizar. Começou com a resistência a lavar os dentes. Vou tentar reunir com a parceira de coligação para tentar perceber o que podemos fazer para apaziguar a situação. Vamos ver. Estou algo apreensivo.

22/02/2014
As coisas estão a começar a piorar. Apesar das tentativas de reforma de algumas políticas, o dissidente está cada vez mais inconformado. As vozes começam a fazer-se ouvir. A resistência inicial ao lavar os dentes espalhou-se a outra áreas da vida. Já não quer comer quando é hora de comer. A não ser que sejam gomas. Nem tomar banho. Sentes-se o clima de tensão cada vez mais acentuado. Estou a ficar deveras preocupado com o rumo das coisas.

25/02/2014
Isto está muito difícil. Muito difícil mesmo. O rebelde está disposto a derrubar o poder. Disso já não tenho dúvida. Começou a afectar a coligação. Reuni hoje com a parceira de coligação e estamos discordantes nas medidas a tomar. O dissidente já não se quer sentar quando se lhe pede. Já não quer ouvir quando tentamos a via do diálogo. Cheira-me que o governo vai caír. Acho que vou ter de recorrer à força para conter um possível golpe de Estado.

27/02/2014
Hoje fui fazer uma endoscopia. Andava com azia e o médico marcou-me uma. Fiz sem anestesia. Porra que foi difícil.

28/02/2014
Hoje sofri a primeira tentativa de derrube. O dissidente mobilizou todas as suas forças e perante a ordem para recuar, avançou. Estou com medo. Consegui conter o avanço temporariamente. Mas começo a perder o controlo do Estado. O dissidente já não cumpre quaisquer ordens. Conseguiu derrubar a coligação. A minha parceira de coligação colapsou. Já me falou na vontade de pedir asilo político. Declarei Lei Marcial.

01/03/2014
O país está a ferro e fogo. Estou desesperado. Já nem à força consigo conter os avanços do dissidente. A parceira de coligação está presa no quarto às escuras. Diz que não aguenta mais. Eu também estou no limite. Acho que já é tarde para pedir a intervenção de uma força internacional. A revolução está em curso. Perdi a mão do país. Declarei Estado de Sítio.

02/03/2014
Está instalado o caos. Nada mais funciona. É salve-se quem puder. Declarei Estado de Emergência.

03/03/2014
Se estiverem a ler estas palavras, é porque não consegui resistir à última investida do dissidente. Estamos presos. Somos diariamente torturados. As técnicas são conhecidas. Privação de sono. Trabalhos forçados. Perguntas e cânticos repetidos vezes sem conta até nos quebrar psicologicamente. Que Deus esteja connosco.

15/03/2014
Consegui tomar como reféns os Dinofroz. Quem diria que aqueles dinossauros minúsculos seriam tão importantes para o rebelde. Vejo aqui forte possibilidade de retomar o poder. Se ao menos eu pudesse encontrar a parceira de coligação. Ah está ali: "- Mulher, sai debaixo da cama. Tenho aqui os Dinofroz e disse-lhe que os queimava se ele não se portasse bem. O poder é nosso novamente".


18/02/2014

"VAI-SE ANDANDO"



De vez em quando deparo-me com gente que me emociona até aos ossos. É o caso do Steve Fugate. Conheci o Steve através de um realizador/surfista que sigo e por quem tenho a maior admiração que se chama Cyrus Sutton*. O Cyrus recentemente documentou a viagem de Steve Fugate. Um pai que perdeu os dois filhos e que está a caminhar há 14 anos e há mais de 50,000 km em busca de cura e paz interior. E ao mesmo tempo ajudar outros a sararem os corações partidos. Já aqui escrevi uma vez sobre o que acho que deve ser perder um filho. Mas é só o que acho. Porque nem consigo sequer imaginar. E nem quero, como aqui já disse antes. Este pai perdeu dois. Os seus únicos dois filhos. Em dois momentos diferentes da vida. Perdeu tudo portanto. Sem mais nada para perder, fez-se à estrada. A pé. Carrega a "casa" consigo. E um sinal. A dizer LOVE LIFE em letras grandes. Pelo caminho, vai partilhando a mensagem com aqueles que se cruzam com ele. É um exemplo incrível de sobrevivência. Porque é isso que eu chamo à vida depois de se perder os únicos filhos que se tem. Sobrevivência. O Steve é um sobrevivente. Que no meio da escuridão consegue ver a luz. Ficaram-me algumas das frases dele. Umas ajudam-nos a perceber o que realmente importa na vida. Outras emocionaram-me até aos ossos.

Sinceramente não sei até quando o Steve vai caminhar. Ele diz que também não sabe. Diz que só vai parar quando conseguir o que quer. Mas quando lhe perguntam o que é que ele quer, ele responde que "só sei quando o conseguir". Até lá ele vai andando. Que é o que resta fazer quando se perde os únicos filhos que se tem. Acho eu. Vai-se andando. Como ele diz, "Quando perdi o meu filho, esqueci todos os outros planos que tinha. (...) Portanto, ando."

Espero sinceramente que o Steve consiga o que quer. E que pelo caminho consiga ajudar todas as pessoas com corações partidos.
Eu, bom, eu espero não ter nunca de caminhar o caminho de Steve. Mas se eu o visse, dava-lhe um abraço. Porque tenho orgulho nele. De me fazer acreditar que afinal a humanidade não está perdida. E de perceber o ridículo que é dizermos "vai-se andando" quando nos perguntam como é que estamos. É coisa que espero nunca dizer.

"A minha fé é sarar o coração partido enquanto ele ainda bate. É o que eu quero fazer."
- Steve Fugate

Para ver o caminho do Steve é clicar aqui.


*Nota: Cyrus Sutton é um realizador incrível e um surfista notável. Um homem DIY. Ganhou um Emmy pelo documentário The Next Wave: A Tsunami Relief Story. É autor do blog regressing forward e criador do site Korduroy TV. Cruzou-se com o Steve à beira da estrada na California no ano passado, um dia depois do natal. E fez esta curta. Thanks Cyrus for sharing. 

10/02/2014

UMA MULHER COM M GRANDE

A minha mãe {circa 1968}

Faz anos hoje. Nasceu em 1949. No ano em que Egas Moniz ganha o prémio nobel da medicina. Ano da criação da NATO. Ano em que a U.R.S.S. (era a antiga União Soviética meninos e meninas da nova geração) testa a sua primeira bomba atómica. Ano dos primeiros Emmys. Viveu a adolescência durante os loucos anos 60. E sobreviveu à primeira metade psicadélica de 70 e à segunda metade disco também. Um feito em si. Na metade psicadélica de 70 nasci eu. Não sei o que quererá dizer. Mas ainda bem que aconteceu. Veio da Argentina para Portugal para os EUA e de volta a Portugal. Na Argentina viveu e cresceu numa ilha. Ia de lancha para a escola. Estudou. Formou-se. Trabalhou. Sonhou. Lutou. Sobreviveu. Venceu. Do pai herdou a bondade infindável e o gosto por uma boa gargalhada. Da mãe herdou a sapiência e coolness típica de uma matriarca. Dela herdei o bom senso, a garra, a resiliência e a capacidade de amar e sonhar. Dela herdei o gosto pela fotografia. Dela herdei a minha primeira máquina. Uma velhinha Yashica que ainda hoje guardo. Com ela aprendi a admirar a força das mulheres. Com ela aprendi a gostar de Beatles, Anne Murray, Abba, The Carpenters, Neil Diamond. Comigo ela aprendeu a gostar de hard rock. Punk nem por isso. E continua a não morrer de amor pelas minhas tattoos. Mas não se pode ter tudo, né. Com ela aprendi muito. Só não aprendi a engolir comprimidos. Ainda hoje dissolvo os ben-u-rons na água. Continua com um sotaque espanhol que teima em desaparecer. Uma forma esquisita de pronunciar os S's. Liga-me sempre à hora das refeições. Almoço ou jantar. O que me irrita profundamente. Gosta de grandes conversas telefónicas. Logo comigo que odeio falar ao telefone e que uso o telefone como uma máquina de telegramas. Mas mesmo assim gosto dela. O meu filho adora-a. Cada vez que lhe pergunto se quer ir a casa da avó, é como se lhe oferecesse o mundo. É uma grande amiga. Uma grande mãe. Uma grande avó. É uma grande mulher. Ou melhor, uma mulher com M grande. Parabéns pelos teus anos de vida e e obrigado pelos que partilhaste comigo. Sei que as minhas irmãs sentem o mesmo. E os netos vão pelo mesmo caminho. Feliz cumple madresita.

30/12/2013

HERÓI E PIRATA


É sabido que sou dado a tatuagens. E na semana passada fiz mais uma. Uma "sugar skull" de homenagem ao meu avô (caveira decorada e feliz que na tradição mexicana celebra a vida e honra a pessoa falecida). Já faz alguns anos que morreu num acidente. Uma merda sem jeito nenhum. Mas assim foi. E ainda hoje morro de saudades dele. Queria tanto que ele e o meu filho se tivessem conhecido pessoalmente. Iam se adorar. Tenho a certeza. Era impossível não se adorar o meu avô. E por isso fiz a tatuagem. Juntamente, tatuei 2 objectos que andavam sempre com ele e que eu herdei. O canivete e o relógio. O canivete que ele usava para tudo. Para cortar pão. Para cortar ramos de árvores para me fazer um arco e uma flecha. Para abrir nozes. Para comer uma maçã. Servia para tudo. Para mim representa mais que o simples canivete que ele carregava no bolso. Representa a versatilidade do meu avô. Representa todas as coisas diferentes que ele sabia fazer. Representa o seu talento e paixão de trabalhar com as mãos. E transformar uma coisa simples num acto mágico.
Tatuei também o relógio (apesar de ainda faltar tatuar os ponteiros e as horas, mas já não aguentava mais e ficou para a 2ª sessão). O relógio foi lhe dado quando vivia nos Estados Unidos. Foi lhe dado como prémio na fábrica onde trabalhava ainda eu não era nascido. Nunca mais o tirou. Até ao dia da sua morte. Lembro-me de o ver todas as manhãs a dar corda ao relógio enquanto bebíamos yerba mate juntos. Era motivo de orgulho aquele relógio. O símbolo do empenho e do trabalho. Da coragem de ter saído da Argentina e ter ido para um país (EUA) onde não falava a língua e do qual nada conhecia. Símbolo do reconhecimento. Também herdei esse relógio. Que para mim simboliza a humildade, o trabalho, o sangue e o suor. Simboliza o orgulho no que se faz e no que se é.

Carrego no peito, por dentro e por fora, a aura de um homem fora de série. De um herói que me protege e olha por mim a cada passo da minha vida. Que me lembra do que é feito o carácter.
Um homem que me ensinou pequenas grandes coisas. A imagem pela qual me tento moldar. Um homem humilde. Trabalhador e lutador. De uma honra inabalável. De uma bondade e coração sem limites nem fronteiras. Adorava uma boa partida. E fazia rir todos. De forma muito fácil. Era quase magia. Sempre admirei como raras vezes se queixava de alguma coisa. Educou-me durante uma boa parte da minha vida. Cresci com ele. Passou-me valores que hoje fazem parte da fibra da minha pessoa. Ensinou-me tudo o eu que precisava de saber. Ensinou-me a jogar ao pião. A plantar uma árvore. A apanhar fruta. Com ele aprendi a usar um martelo, um serrote, um machado. Aprendi a rachar lenha para a lareira. A escolher a melhor. Ensinou-me a fazer armadilhas para apanhar ratos e toupeiras sem os matar. Ensinou-me a malhar feijão. A fazer uma fisga com um ramo de marmeleiro, um bocado de couro e uma câmara de ar de um pneu. Ensinou-me a diferença entre pardais, pintassilgos e verdilhões. Ensinou-me a relativizar os problemas. Que não valia a pena nos chatearmos com a vida e com as pessoas. Com ele bebia yerba mate todas as manhãs. Jogávamos à bola. Andávamos de bicicleta. Víamos os combates de boxe juntos. Com ele ia apanhar polvos. Ensinou-me a lixar, a envernizar e a pintar. Ensinou-me como pegar e carregar uma saca de batatas às costas sem as partir. E adorava as tardes passadas a lavar garrafas, para depois as encher com o vinho caseiro que guardava nas pipas. Ficava orgulhosamente ao lado dele na missa ao domingo. Lá em cima naquela varanda onde ficavam os homens. Por isso tudo fiz esta tatuagem.
Obrigado por tudo. Que foi tanto, sem que eu nunca tivesse que pedir nada. Obrigado Avô. Obrigado Viejo.

Tenho tanta pena do meu filho não ter um avô assim. Já o disse algumas vezes. Mas a vida é assim mesmo. Para compensar, costumo dizer em brincadeira que sou pai-avô. E para me convencer que isso até pode ser fixe, relembro que o Brad Pitt que fez agora 50 anos, teve filhos com 45, portanto ele também um "pai-avô".

Voltando ao meu avô. Para mim ele é e será sempre o meu herói.
Para o meu filho, ele é alguém que está lá em cima "nas estrelas ao lado de Jesus", como ele diz. E talvez um pirata. Porque é isso que o meu filho vê quando olha para a minha tattoo. Que o bisavô "é um pirata" que está lá em cima "nas estrelas com Jesus". Pois eu acho que era assim mesmo que o meu avô gostaria de ser lembrado.

15/12/2013

A ENTREVISTA



A minha mulher faz anos hoje. 30 para ser mais exato. Tivemos uma noite épica de celebração ontem até às altas horas da madrugada. Mas apesar da inesquecível celebração, sinto que chegar aos 30 foi para ela um marco levemente tingido com angústia (sente que passou para a maioridade e que já não é a pita que um dia foi). Nada mais falso. E para o provar, decidi entrevistar a pessoa que mais a adora e saber o que ele tem a dizer dela. Fica aqui a entrevista.

Happy Birthday baby. And Happy Wishes.

10/12/2013

COMO TER UM FILHO EM 3 PASSOS DIFÍCEIS. PASSO 3: O PARTO E O RESTO


O parto. Ah, o parto. Hoje em dia é um evento familiar. Mãe a soprar e a fazer força enquanto agarra a mão do pai. Pai de bata hospitalar a tentar filmar o acontecimento sem desmaiar. Equipa médica concentrada mas de sorriso a ajudar o mais novo a vir cá pra fora da melhor maneira possível. Sai o bebé e colinho da mãe com ele, ainda cheio de nhanha e tudo. Mãe de lágrimas nos olhos com a sua cria deitada no peito. Pai pálido filma o momento. Ah, o parto. Nos filmes é assim. Mas sabemos bem que na vida real não rola bem desta maneira. O nosso filme então foi bem bem diferente. O que nos leva para o 3º e último passo de como ter um filho em 3 passos difíceis. O nosso filme rolou assim:

Passo 3: O parto e o resto.

Arranquei logo que recebi a chamada da minha mulher a dizer que se estava a esvair em sangue, que a equipa médica não conseguia parar a hemorragia e que tinham de tirar o meu filho já. Para salvar a sua vida e a da mãe. Estava ela com 7 meses de gravidez. 32 semanas para ser mais exato.
Estacionei no primeiro lugar que me apareceu. E caguei para o ticket de estacionamento. Não tinha tempo para a EMEL. Entro na MAC e pergunto por ela. Olho para a cama onde ela costumava estar e estava vazia. Já sem lençóis e sem nada. Uma auxiliar entrega-me dois sacos pretos enormes cheios com os pertences da vida dela na MAC. Telemóvel, roupa interior, pijamas, laptop, DVDs, garrafa de água, diário, agenda, auricular, carregadores, fotografias. Todo o "mobiliário" dos últimos meses. A auxiliar leva-me até à porta do bloco operatório onde o milagre estava a acontecer. E ali fico. À porta, sozinho, sentado, com 2 sacos pretos enormes. Ninguém mais estava lá. Só eu. E o meu coração a bater na garganta.

Até que sai uma médica pela porta. Não tinha mais de 35 anos. Ou então estava muita bem conservada. Pára e olha para mim. Tira a máscara e aproxima-se com cara séria. Eu levanto-me e ela pergunta-me "é o pai?". Eu respondo que sim, sou. Ela sem nunca tirar a poker face estica-me a mão e diz "parabéns, tem ali um belo rapaz". Confesso que me caíram as lágrimas. Ela diz-me "só um bocadinho que a enfermeira já fala consigo". E foi-se. Passado 1 minuto, saíram pela porta os restantes médicos. Eram uns 3 ou 4. Já não me lembro bem. Todos eles passaram, deram os parabéns sem parar e seguiram pelo corredor na conversa. Eu e os meus sacos ficámos ali à espera em pé, olhos fixados na porta. Ao que sai uma enfermeira com um bebé nos braços. Chega ao pé de mim e conheço o meu filho pela primeira vez. De todos os momentos mais emocionais que tive na vida, este foi sem dúvida o mais emocional. "É o seu menino" diz ela. "Parabéns pai. Correu tudo bem. Nasceu com Apgar 9, pai". Enquanto ela falava eu não tirava os olhos dele. Queria abraçá-lo mas não podia. Eu tinha acabado de vir da rua, não estava desinfetado e ele estava fragilizado com as suas 32 semanas de vida e 1,9 kg de peso. Mas os meus olhos e a minha alma abraçavam-no e não o largavam. Era tão parecido comigo que fazia impressão. Só que com menos cabelo e sem barba. Lembro-me que tive uma sensação incrível, como se me estivesse a ver a mim próprio quando nasci. Uma espécie de déjà vu. Diz a enfermeira "peço desculpa pai, mas tenho de o levar já para os cuidados intermédios. Depois pode lá ir ter para vê-lo. A sua mulher está a recuperar da anestesia e já a pode ver daqui a um pouco. Aguarde só um pouco". E seguiu com o meu filho pelo corredor a caminho da Unidade de Cuidados Intermédios. Fico ali. Os sacos e eu com lágrimas nos olhos. Ao que passados uns 5 minutos aparece uma enfermeira à porta com a minha mulher deitada numa maca. Vou direito a ela, dou-lhe um beijo e digo-lhe que a amo. Que é a mulher mais corajosa que conheço. E que correu tudo bem e que já vi o nosso filho. Ela ainda com a moca da anestesia geral, pergunta-me onde ele está. Eu explico-lhe que foi para a UC Intermédios mas que está tudo bem. Ela pergunta-me se ele é bonito. Eu digo-lhe que é de certa forma parecido comigo. Ela grita "O MEU FILHO É LINDO" a chorar e ainda drogada. A enfermeira interrompe dizendo que a tem de a levar para a sala de recuperação, que ela ainda está muito fraca. Tinha perdido muito sangue e ainda estava a sair do efeito da anestesia geral. E enquanto a enfermeira empurra a maca pelo corredor fora vou ouvindo a minha mulher a gritar pelo hospital "O MEU FILHO É LINDO". Já tinha virado a esquina no fundo do corredor e eu ainda a ouvia. Foi das cenas mais lindas e hilariantes que vi na minha vida.

Vou a correr com os sacos atrás, direto para a UC Intermédios. Quando chego lá, já o meu filho estava na incubadora. Tubo no nariz, a dormir de barriga para baixo. E tirei-lhe a primeira foto. Fico ali. Apaixonado a olhar para ele. Cara grudada no vidro da incubadora como os putos fazem quando vão ao Oceanário.

Nota. As primeiras fotos na Unidade de Cuidados Intermédios




Entretanto a minha mulher recuperava da cirurgia e da anestesia geral. Tinha perdida muito sangue e portanto estava muito fraca. Só 6 horas depois é que teve autorização para ser levada de cadeira de rodas para ver o nosso filho pela 1ª vez. 6 horas depois ainda não tinha conhecido o filho. Lá foi ela no seu primeiro date com o Santiago. Não posso sequer imaginar o que sentia a caminho dos cuidados intermédios nem o que sentiu quando o viu pela primeira vez, sem poder agarrá-lo ou abraçá-lo. Ela já me tentou explicar. Mas faltam-lhe as palavras. Porque acho que não devem ter sido ainda inventadas. A meio da visita desmaiou. Estava ainda muito fraca. E foi levada de volta para a sala de recobro. No dia seguinte chego à MAC, bom dia e tal e vou direto à UC Intermédios. Chego lá e peço para ver o meu filho. A auxiliar vai à incubadora do meu filho e diz que ele já não está lá. Que tinha sido transferido para a UCI (Unidade de Cuidados Intensivos). Foi um soco no estômago. Perguntei o que se tinha passado. Ele diz que a médica já fala comigo. Então parece que os pulmões ainda estavam pouco maduros e não conseguia manter a respiração sem ajuda. Além disso, o peso dele tinha descido substancialmente porque ele não comia. Fui vê-lo à UCI. A UCI da MAC é incrível. Moderna e com uma apertada vigilância e monitorização 24 horas por dia. E lá estava ele. Todo entubado. Atado para não se mexer. Máscara de oxigénio na cara. Tubos no nariz e na boca. Sensores colados por todo o corpo. Agulhas espetadas nos braços minúsculos. Alimentado por um tubo pelo umbigo. Ainda hoje o meu coração aperta cada vez que me lembro do meu filho tão pequeno assim naquele estado. E eu sem poder fazer nada. O sentimento de impotência é avassalador. É contranatura. Então para colmatar a minha impotência, enchi o peito de fé, esperança e amor. E era o que eu lhe trazia todos os dias. Todos os dias lhe falava e dizia que tinha muito orgulho nele. Que ele era a pessoa mais corajosa do mundo. Que era o mais forte. E que eu e a mãe estaríamos sempre lá para ele. Tudo isto ao som dos beep-beep do monitores e do swoosh-swoosh do ventilador que lhe dava o oxigénio para ele respirar. Odiava aqueles sons. Ainda hoje quando os ouço só me lembro disso. Eu tornei-me especialista em ler valores nos monitores. Sentava-me lá ao lado e ficava a olhar ora para ele ora para os valores do monitor. Cada vez que os valores de O2 passavam abaixo de determinado limite que para mim era razoável, lá estava eu a chamar a médica. Fiz marcação cerrada à puta daquela máquina. E assim formam os dias seguintes.

Nota. Fotos da estadia nos UCI





Passados uns dias a minha mulher teve alta. Finalmente. Depois de semanas a fio internada podia sair. Quando entrou era verão. Fazia calor. E agora que ia sair, já o frio apertava. Mas ela pouco saboreou a saída. Porque o nosso filho ia ter de ficar. E já é difícil imaginar o que será para uma mãe ter um filho, completamente anestesiada, sem assitir a nada, ficar sem ele sem nunca o ter visto depois de ele ter nascido durante 6 horas. O difícil que será ficar acamada num quarto rodeada de mães com os seus filhos recém-nascidos ao colo e ela ali sozinha com o filho enfiado numa incubadora enrolado em tubos na UCI. Mas ter de sair daquele hospital e deixá-lo ali.... Voltar para casa sozinha comigo sem o nosso filho. Foi tremendo. Nunca vou esquecer os olhos dela enquanto voltávamos para casa. Há pouco tempo vi um video de um caso mais ou menos idêntico ao nosso, e há uma parte em que o marido filma os olhos da mulher quando voltam para casa sem o filho. E eu revi aquela cena exatamente.

E a nossa rotina continuava. Casa-MAC-casa. Tirei os dias a que tinha direito e passava os dias lá com minha mulher. Entretanto ele começa a melhorar. Começa a ganhar cada vez mais força e peso. E é finalmente transferido novamente para a UC Intermédios. E aqui fica durante mais alguns dias.

Nota. As fotos do regresso à Unidade de Cuidados Intermédios.




Passados alguns dias, ele é transferido para o Berçário. Acabou-se a incubadora. Acabaram-se os tubos, máquinas e monitores. Já tinha ganho peso e força suficientes para estar finalmente com os outros bebés. Antes ainda vi uma enfermeira tentar lhe tirar sangue para análises. Mas não encontrava a veia. Espetou-o em 4 sítios diferentes nos braços sem sucesso. Teve de lhe tirar o sangue pelo pé. Cada vez que ela espetava a agulha o meu coração rasgava. Mas estes putos são qualquer coisa de extraordinário. Incrível a resiliência e força deles. São mesmo uma força da natureza.

Agora já no Berçário as rotinas eram outras. Banhos já eram dados pela mãe (eu não dava porque adorava ver  a felicidade e amor estampados no rosto da minha mulher ao lavar o filho num recepiente do tamanho de um tupperware). O leite também já era dado pela mãe. Aconchego e colo. Palmadinha nas costas para o arroto da praxe. Tudo a que tinha direito. E assim foi até dia 15 de novembro. 20 dias depois de ter nascido. Conseguiu chegar ao peso mínimo aceitável para ter alta e foi o 1º dia que o levámos para nossa casa. O entusiasmo de levarmos a mala com a primeira roupinha que ele ia usar é difícil de pôr em palavras. Nunca vou esquecer a cara da minha mulher a fazer-lhe a mala. Foi um dos dias mais felizes das nossas vidas. Estava um frio de rachar lembro-me. Mas o calor que trazíamos no nosso peito era suficiente para aquecer toda a Lisboa.

E assim se fez um filho em 3 passos difíceis. Foi uma aventura do caraças. Um carrocel de emoções. Uma monumental tareia emocional. Podia ter sido muito pior é certo. E todos os dias agradeço a sorte e felicidade de ter corrido como correu. Todos os dias sinto-me abençoado. E sei que Deus esteve do nosso lado. A cada passo. Se podia ter sido mais fácil? Podia. Mas não era a mesma coisa.

E agora que estive a relembrar e a recontar toda esta história, quero agradecer:
  • a toda a equipa da MAC (médicos, enfermeiros, auxiliares e seguranças) que foram a nossa família durante aqueles meses. Aos médicos e enfermeiros por nunca terem desistido de nós nem de ninguém que lá estava.
  • às mães que lá estavam pelo apoio mútuo e pela partilha de fé, esperança, amor e histórias.
  • à minha mulher por ser a mulher mais corajosa, determinada e forte do mundo. És a melhor mãe do mundo e uma mulher do caraças. E ainda diz que passaria por tudo outra vez.
  • e ao meu filho, por nunca ter desistido, pela resiliência, pela força, por me ter ensinado o que é lutar pela vida sem nunca baixar os braços. Acho que ainda não tens bem noção, mas és o meu herói.


Só mais uma palavra à EMEL, pela multa que me deram à frente da MAC e que mesmo depois de eu ter explicado toda a situação, mostraram inflexibilidade e intransigência: ide para a puta que vos pariu. Não paguei a multa nem pago, que a esta hora já prescreveu.