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13/05/2015
MAIS UMA PARA OS LIVROS
Quando acordámos fiz ovos mexidos e bacon. Torradas também. E o leite com chocolate que ele adora. Normalmente os pequenos almoços de sábado são como o spring break para um adolescente. Uma excitação. Mas desta vez não comeu nada. E estava apático a olhar para a TV. Achámos que alguma coisa não estava bem. Uns minutos depois queixou-se que queria vomitar. E quando foi ao quarto buscar o Chewbacca e voltou a chorar agarrado à cabeça percebemos que era sério.
20 minutos depois no hospital estava a fazer uma punção lombar. Enquanto 3 enfermeiros o imbobilizavam na maca com ele sentado e dobrado todo para a frente, a médica espetava uma agulha entre as vértebras para lhe sacar líquido da medula espinhal. Eu de joelhos em frente a ele segurava-lhe as mãos e pedia-lhe para não se mexer, que a doutora ia só lhe limpar as costas, que o pai e a mãe iam estar sempre ali.
A cara e a força que ele fazia enquanto a agulha entrava nas costas é coisa que nunca vou esquecer. Senti a força de um gigante a apertar-me as mãos enquanto ele cerrava os dentes.
Passada uma hora, já no quarto do isolamento chegaram as análises e as notícias menos más. Meningite viral. A médica diz-nos que o prognóstico é bom e que o pior já passou. Agora era vigiar a recuperação.
Bem, to make a long story short, já em casa e com ele ainda a andar curvo com as dores da punção lombar, fui ter com ele e disse-lhe com um sorriso e um beijo na cabeça:
Eu_ então meu velhote, como é que te sentes?
Ele_ dói-me a cintura.
Eu_ vai passar filho. prometo... sabes uma coisa... tenho muito orgulho em ti. foste um valente.
Ele_ sou corajoso. não tenho medo de nada.
Eu_ pois és filho. és mesmo.
E é verdade. Tough as nails como se costuma dizer na terra do Sam. É rijo este miúdo. Não é bem verdade que não tenha medo de nada. Não é fã do escuro. E de mais algumas coisas. Mas que é corajoso, é.
Como disse o Mandela, "coragem não é a ausência do medo mas o triunfo sobre ele".
Obrigado a todos e todas pelas boas energias e pela preocupação. A recuperação foi completa e 100%.
28/04/2015
O DIA EM QUE CAIU DO TRONO
Comecei por ensinar o meu filho a andar de skate com 2 anos. Desde muito cedo ele adorou. E começou a ganhar-lhe o jeito. Fui andando com ele, ensinando o que deve ou não fazer, o que pode ou não fazer. Ele foi evoluindo. Agora com 4 anos, chegou a uma fase que eu achei que ele devia passar a ter aulas com um professor e outros miúdos. Achei que podia ajudá-lo a desenvolver outras técnicas. Aprender outras coisas. Conhecer outros miúdos. Aprender com os mais velhos. Então começou as aulas. Tem dois professores ex-skaters profissionais. Além de bons skaters, bons professores. Lógico que os colegas na aula são todos mais velhos. É o único com 4 anos. E naturalmente tem as limitações inerentes à idade. Sempre que a aula começa, está com a moral toda. Motivado. Orgulhoso. Divertido. À medida que a aula vai avançando começa a esmorecer. Até que desiste a meio. Apesar do meu filho ser muito bom no skate para idade dele, apesar de ser capaz de fazer muito mais com um skate do que maioria dos miúdos e das miúdas com 4 anos, apesar de adorar, nas últimas aulas desistiu a meio, Cabeça para baixo, skate a arrastar. Aconteceu não uma, mas duas vezes.
Como não sou parvo, naturalmente nunca mostrei má cara. Nunca me mostrei chateado, nunca me mostrei desiludido, nem triste nem nada disso. Simplesmente perguntava-lhe "queres ir embora filho? de certeza?".
Nunca o obriguei a andar e só ia às aulas quando queria. Até que um dia, sentados em cima dos skates, perguntei: "filho, porque é que não queres estar nas aulas? gostas de lá estar ou não gostas muito?" Ao que ele me responde "gosto mas pensava que era só para fazer o que eu sei".
Ahhhhhhhhh. Toda a festa que eu fazia quando ele conseguia alguma coisa, todas as vezes que lhe disse que ele consegue tudo, todas os gritos que ele era o maior, vieram bater-me à porta. Ali na aula, com os miúdos mais velhos a fazerem mais do que ele é capaz, ele sente-se um underachiever. Incapaz de chegar ao nível dos outros. Nos olhos dele, ele vê todos a andarem muito melhor que ele, a fazerem mais do que ele, incapaz do distanciamento para perceber a diferença de idades, força, anos de experiência que o separam do resto da turma. Por isso ele sente-se incapaz de chegar e estar ao nível dos outros. E por isso acha que já não consegue tudo como eu tantas vezes lhe disse. Que já não é o maior. Sente-se desiludido. E acha que me vai desiludir. Porque na aula ninguém faz a festa que um pai faz. Percebi.
Expliquei-lhe que ele está nas aulas para fazer o que sabe e também para tentar aprender a fazer o que não sabe. Que tentar é fixe. E é divertido. Que ele é o mais pequeno da turma e que por isso não consegue fazer algumas coisas iguais aos outros. Que eu também já fui pequeno. Mas que ele é especial por ser tão pequeno e conseguir estar na turma dos grandes no skate. E que quando for grande vai conseguir fazer igual aos outros. Que para conseguirmos alguma coisa, temos que tentar. Aprender. E tentar.
Parece mentira que eu tenha conversas deste calibre com um miúdo de 4 anos. Mas tenho. E aprendo todos os dias com ele. Como ele certamente aprende comigo. É tão fácil cair na asneira de os iludir demasiado quando os amamos tanto. Fazemos uma festa tremenda de qualquer coisinha. Como se fossem semideuses. Ao ponto deles acreditarem que o são. E daí à desilusão é um instante. Depois é arregaçar as mangas, encher o peito e sentar ao lado deles e explicar o que devia ter sido logo explicado desde início.
Ou não. Talvez isto faça parte. Sei lá eu. Eu também só ando nisto de ser pai há 4 anos. E é a minha primeira vez. Também ando a apanhar bonés. Não sei tudo. Faço o melhor que sei. Vou tentando. E aprendendo. Um gajo tem de elogiar, mas não muito. Um gajo tem de ralhar, mas não muito. Um gajo tem de ensinar, mas não muito. Um gajo tem de exigir, mas não muito. Porra pra isto. Uma coisa é certa. Um gajo tem é de os amar e respeitar. E é muito.
25/03/2015
EM PAZ
Ontem estava em Barcelona quando de manhã soube que um avião tinha caído. Saído de Barcelona. Como ia regressar a Portugal passadas umas horas mandei mensagens a quem devia avisar: "caiu um avião que saiu de Barcelona mas não foi o meu e eu estou bem". Parece estúpido, mas essa mensagem poupou algum stress a quem a recebeu e que ainda não tinha visto a notícia. A mim, o stress e a tristeza abateram-se como uma avalanche. Stress porque ia viajar dentro de algumas horas. Tristeza ao imaginar as pessoas que caíram com o avião e as famílias que nunca mais as poderão segurar. Olhei para a meteorologia no iPhone. Vi que ia estar uma ventania do cara#*$%. Já sabia que ia levar uns abanos de Barcelona a Lisboa. Segurei-me à ideia da probabilidade de caírem 2 aviões saídos de Barcelona no mesmo dia. Seria a mesma de alguém ganhar o Euromilhões 2 vezes na mesma semana. Ainda assim, engoli um ansiolítico. E engoli em seco.
Quando entrei no aeroporto em Barcelona, estava um silêncio estranho. Caras sérias. Tensas. A contrastar com o normal movimento e barulho da excitação de viajar que se encontra nos aeroportos. Tentei abstrair-me do que se tinha passado. Mas não deixava de pensar nisso. Antes de embarcar liguei à minha mulher e tentei falar como se não fosse a última vez. "Até logo" e "comprei uma coisa para o miúdo" e foi assim que desliguei. Olhei para as fotos do meu filho. Revi alguns dos vídeos. Fui dos últimos a entrar no avião. Quando cheguei à porta fiquei parado a olhar para os pés. Não me lembrava se costumava entrar com o pé direito ou esquerdo. Até porque nunca dei importância a isso. Mas agora parecia uma decisão crucial. Que se lixe. Entrei ao calhas e cumprimentei a tripulação. Sorriram mas os olhos mostravam outra coisa. Mostravam o mesmo que os meus. Apreensão. Sentei-me no meu lugar e tentei pensar em tudo menos no que estava a pensar. Na fila da frente, um indivíduo de turbante a rezar. Eu só esperava que as rezas dele fossem para chegarmos todos sãos e salvos e não para se encontrar com Alá e as virgens depois de mandar esta merda toda pelo ar. A viagem começou bem. Levantou bem, alguma turbulência pelo caminho mas nada que me fizesse cravar as unhas no banco da frente. Quando estamos a chegar a Lisboa, um vento filho da puta como nunca. O que em inglês se chama "devil wind". O avião ia a dançar o Vira por cima de Lisboa e da Segunda Circular. Lembrei-me das vezes todas que me chateio com o trânsito de Lisboa. Da merda que tenho de aturar no trabalho. Das vezes que me irrito porque o miúdo não come. Ou porque esqueci-me da mochila em casa com o equipamento para a fisioterapia. Ou da vontade que tenho de abalroar os carros que estacionam em cima das passadeiras só para ficarem em frente à porta do café para beberem a puta da bica de manhã. Ou o impulso que tenho de agarrar pelos colarinhos aquela inflexível monte de bosta que trabalha no balcão da Segurança Social.
E enquanto o avião abanava a cauda como a Beyoncé faz o twerk, eu lia repetidamente uma frase da revista que tinha ao colo. Era uma reportagem de uma viagem de surf que o Dane Reynolds tinha feito a Marrocos e que em conversa com um marroquino, o tipo diz-lhe "when the world ends we will all be gone, so we should just live in peace".
Cheguei bem. O meu filho correu-me para os braços no aeroporto como se eu tivesse chegado duma expedição à lua. Estou em paz. E é assim que devíamos ficar enquanto cá andamos. "When the world ends we will all be gone, so we should just live in peace".
02/02/2015
O COPO MEIO CHEIO {A OUTRA METADE ENTORNEI A TENTAR AGARRAR NO COPO COM O OMBRO DESLOCADO}
Quando uma pessoa faz 40 anos pensa "epá, 40 anos..." Mas depois os 40 anos não sentem a 40 anos. Na cabeça continuam a ser 20. E continuamos a fazer coisas como sempre fizemos, porque para nós não há idade para as fazer ou deixar de fazer. Isto tem consequências. Uma dessas consequências é a cara das pessoas quando lhes digo que desloquei o ombro a andar de skate.
- "Então, como é que fez isso?"
- "Foi a andar de skate."
Tenho recebido 3 tipos de resposta:
O silencioso: ".............silêncio............"
O paternalista: "Já não tem idade para essas coisas."
E o terceiro tipo de resposta é de quem me conhece e logicamente compreende que estas merdas acontecem independentemente da idade e me dão força e otimismo para a recuperação.
A verdade é que isto não tem a ver com a idade. E quando numa reunião de trabalho me perguntaram do braço e eu disse que tinha sido a andar de skate e ficou tudo com cara de quem acha que sou parvinho, fiquei com orgulho. De me ter magoado a fazer uma coisa que gosto juntamente com o meu filho. Antes isso do que ter um torcicolo por estar um fim-de-semana inteiro a ver TV no sofá.
Mas quando olho para trás, fico lixado com o que aconteceu. Fico com a sensação que podia ter evitado. E pior do que a dor tremenda que passei, pior do que a tortura que foi os ortopedistas meterem a merda do ombro no sítio outra vez, pior do que lavar os dentes ou limpar o rabo com a mão esquerda, pior do que isso tudo, é saber que o prognóstico de um ombro deslocado não é famoso. É imaginar que posso vir a ter dificuldades em surfar como deve ser, andar de skate sem medo de caír sobre o braço ou atirar uma bola ao meu cão. Ou pior, não poder pegar no meu filho ao colo com o braço direito sem medo. Não sei. Pode ser que esteja a ser dramático. Podia ter sido pior.
Para já, vou me concentrar na recuperação e imaginar que isto vai ficar comó aço. O sling já tirei e vou começar com a fisioterapia. Espera-me um longo caminho. Cheira-me que isto só vai estar capaz daqui a uns 6 meses no mínimo. Mas vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para estar a 100%.
Até lá, vou me divertindo a ver o meu filho a andar de skate e a mentalizar-me que isto é o "changing of the guard". A nova geração a substituir a velha. É que isto não tem a ver com idade, mas tem.
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