Mostrar mensagens com a etiqueta sustos do caraças. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta sustos do caraças. Mostrar todas as mensagens

18/05/2015

ELE VS. VÍRUS


Ele venceu por KO no 1º round.

Obrigado a todos e todas pelas mensagens e pelas boas energias.

Obrigado ao meu filho pela força e por ser um lutador.

Este vídeo aqui em baixo chama-se "kicking the virus' ass".

Enjoy.




13/05/2015

MAIS UMA PARA OS LIVROS


Quando acordámos fiz ovos mexidos e bacon. Torradas também. E o leite com chocolate que ele adora. Normalmente os pequenos almoços de sábado são como o spring break para um adolescente. Uma excitação. Mas desta vez não comeu nada. E estava apático a olhar para a TV. Achámos que alguma coisa não estava bem. Uns minutos depois queixou-se que queria vomitar. E quando foi ao quarto buscar o Chewbacca e voltou a chorar agarrado à cabeça percebemos que era sério.

20 minutos depois no hospital estava a fazer uma punção lombar. Enquanto 3 enfermeiros o imbobilizavam na maca com ele sentado e dobrado todo para a frente, a médica espetava uma agulha entre as vértebras para lhe sacar líquido da medula espinhal. Eu de joelhos em frente a ele segurava-lhe as mãos e pedia-lhe para não se mexer, que a doutora ia só lhe limpar as costas, que o pai e a mãe iam estar sempre ali.

A cara e a força que ele fazia enquanto a agulha entrava nas costas é coisa que nunca vou esquecer. Senti a força de um gigante a apertar-me as mãos enquanto ele cerrava os dentes.

Passada uma hora, já no quarto do isolamento chegaram as análises e as notícias menos más. Meningite viral. A médica diz-nos que o prognóstico é bom e que o pior já passou. Agora era vigiar a recuperação.

Bem, to make a long story short, já em casa e com ele ainda a andar curvo com as dores da punção lombar, fui ter com ele e disse-lhe com um sorriso e um beijo na cabeça:

Eu_ então meu velhote, como é que te sentes?

Ele_ dói-me a cintura.

Eu_ vai passar filho. prometo... sabes uma coisa... tenho muito orgulho em ti. foste um valente.

Ele_ sou corajoso. não tenho medo de nada.

Eu_ pois és filho. és mesmo.

E é verdade. Tough as nails como se costuma dizer na terra do Sam. É rijo este miúdo. Não é bem verdade que não tenha medo de nada. Não é fã do escuro. E de mais algumas coisas. Mas que é corajoso, é.
Como disse o Mandela, "coragem não é a ausência do medo mas o triunfo sobre ele".


Obrigado a todos e todas pelas boas energias e pela preocupação. A recuperação foi completa e 100%.

25/03/2015

EM PAZ


Ontem estava em Barcelona quando de manhã soube que um avião tinha caído. Saído de Barcelona. Como ia regressar a Portugal passadas umas horas mandei mensagens a quem devia avisar: "caiu um avião que saiu de Barcelona mas não foi o meu e eu estou bem". Parece estúpido, mas essa mensagem poupou algum stress a quem a recebeu e que ainda não tinha visto a notícia. A mim, o stress e a tristeza abateram-se como uma avalanche. Stress porque ia viajar dentro de algumas horas. Tristeza ao imaginar as pessoas que caíram com o avião e as famílias que nunca mais as poderão segurar. Olhei para a meteorologia no iPhone. Vi que ia estar uma ventania do cara#*$%. Já sabia que ia levar uns abanos de Barcelona a Lisboa. Segurei-me à ideia da probabilidade de caírem 2 aviões saídos de Barcelona no mesmo dia. Seria a mesma de alguém ganhar o Euromilhões 2 vezes na mesma semana. Ainda assim, engoli um ansiolítico. E engoli em seco. 
Quando entrei no aeroporto em Barcelona, estava um silêncio estranho. Caras sérias. Tensas. A contrastar com o normal movimento e barulho da excitação de viajar que se encontra nos aeroportos. Tentei abstrair-me do que se tinha passado. Mas não deixava de pensar nisso. Antes de embarcar liguei à minha mulher e tentei falar como se não fosse a última vez. "Até logo" e "comprei uma coisa para o miúdo" e foi assim que desliguei. Olhei para as fotos do meu filho. Revi alguns dos vídeos. Fui dos últimos a entrar no avião. Quando cheguei à porta fiquei parado a olhar para os pés. Não me lembrava se costumava entrar com o pé direito ou esquerdo. Até porque nunca dei importância a isso. Mas agora parecia uma decisão crucial. Que se lixe. Entrei ao calhas e cumprimentei a tripulação. Sorriram mas os olhos mostravam outra coisa. Mostravam o mesmo que os meus. Apreensão. Sentei-me no meu lugar e tentei pensar em tudo menos no que estava a pensar. Na fila da frente, um indivíduo de turbante a rezar. Eu só esperava que as rezas dele fossem para chegarmos todos sãos e salvos e não para se encontrar com Alá e as virgens depois de mandar esta merda toda pelo ar. A viagem começou bem. Levantou bem, alguma turbulência pelo caminho mas nada que me fizesse cravar as unhas no banco da frente. Quando estamos a chegar a Lisboa, um vento filho da puta como nunca. O que em inglês se chama "devil wind". O avião ia a dançar o Vira por cima de Lisboa e da Segunda Circular. Lembrei-me das vezes todas que me chateio com o trânsito de Lisboa. Da merda que tenho de aturar no trabalho. Das vezes que me irrito porque o miúdo não come. Ou porque esqueci-me da mochila em casa com o equipamento para a fisioterapia. Ou da vontade que tenho de abalroar os carros que estacionam em cima das passadeiras só para ficarem em frente à porta do café para beberem a puta da bica de manhã. Ou o impulso que tenho de agarrar pelos colarinhos aquela inflexível monte de bosta que trabalha no balcão da Segurança Social.

E enquanto o avião abanava a cauda como a Beyoncé faz o twerk, eu lia repetidamente uma frase da revista que tinha ao colo. Era uma reportagem de uma viagem de surf que o Dane Reynolds tinha feito a Marrocos e que em conversa com um marroquino, o tipo diz-lhe "when the world ends we will all be gone, so we should just live in peace".

Cheguei bem. O meu filho correu-me para os braços no aeroporto como se eu tivesse chegado duma expedição à lua. Estou em paz. E é assim que devíamos ficar enquanto cá andamos. "When the world ends we will all be gone, so we should just live in peace".

10/12/2013

COMO TER UM FILHO EM 3 PASSOS DIFÍCEIS. PASSO 3: O PARTO E O RESTO


O parto. Ah, o parto. Hoje em dia é um evento familiar. Mãe a soprar e a fazer força enquanto agarra a mão do pai. Pai de bata hospitalar a tentar filmar o acontecimento sem desmaiar. Equipa médica concentrada mas de sorriso a ajudar o mais novo a vir cá pra fora da melhor maneira possível. Sai o bebé e colinho da mãe com ele, ainda cheio de nhanha e tudo. Mãe de lágrimas nos olhos com a sua cria deitada no peito. Pai pálido filma o momento. Ah, o parto. Nos filmes é assim. Mas sabemos bem que na vida real não rola bem desta maneira. O nosso filme então foi bem bem diferente. O que nos leva para o 3º e último passo de como ter um filho em 3 passos difíceis. O nosso filme rolou assim:

Passo 3: O parto e o resto.

Arranquei logo que recebi a chamada da minha mulher a dizer que se estava a esvair em sangue, que a equipa médica não conseguia parar a hemorragia e que tinham de tirar o meu filho já. Para salvar a sua vida e a da mãe. Estava ela com 7 meses de gravidez. 32 semanas para ser mais exato.
Estacionei no primeiro lugar que me apareceu. E caguei para o ticket de estacionamento. Não tinha tempo para a EMEL. Entro na MAC e pergunto por ela. Olho para a cama onde ela costumava estar e estava vazia. Já sem lençóis e sem nada. Uma auxiliar entrega-me dois sacos pretos enormes cheios com os pertences da vida dela na MAC. Telemóvel, roupa interior, pijamas, laptop, DVDs, garrafa de água, diário, agenda, auricular, carregadores, fotografias. Todo o "mobiliário" dos últimos meses. A auxiliar leva-me até à porta do bloco operatório onde o milagre estava a acontecer. E ali fico. À porta, sozinho, sentado, com 2 sacos pretos enormes. Ninguém mais estava lá. Só eu. E o meu coração a bater na garganta.

Até que sai uma médica pela porta. Não tinha mais de 35 anos. Ou então estava muita bem conservada. Pára e olha para mim. Tira a máscara e aproxima-se com cara séria. Eu levanto-me e ela pergunta-me "é o pai?". Eu respondo que sim, sou. Ela sem nunca tirar a poker face estica-me a mão e diz "parabéns, tem ali um belo rapaz". Confesso que me caíram as lágrimas. Ela diz-me "só um bocadinho que a enfermeira já fala consigo". E foi-se. Passado 1 minuto, saíram pela porta os restantes médicos. Eram uns 3 ou 4. Já não me lembro bem. Todos eles passaram, deram os parabéns sem parar e seguiram pelo corredor na conversa. Eu e os meus sacos ficámos ali à espera em pé, olhos fixados na porta. Ao que sai uma enfermeira com um bebé nos braços. Chega ao pé de mim e conheço o meu filho pela primeira vez. De todos os momentos mais emocionais que tive na vida, este foi sem dúvida o mais emocional. "É o seu menino" diz ela. "Parabéns pai. Correu tudo bem. Nasceu com Apgar 9, pai". Enquanto ela falava eu não tirava os olhos dele. Queria abraçá-lo mas não podia. Eu tinha acabado de vir da rua, não estava desinfetado e ele estava fragilizado com as suas 32 semanas de vida e 1,9 kg de peso. Mas os meus olhos e a minha alma abraçavam-no e não o largavam. Era tão parecido comigo que fazia impressão. Só que com menos cabelo e sem barba. Lembro-me que tive uma sensação incrível, como se me estivesse a ver a mim próprio quando nasci. Uma espécie de déjà vu. Diz a enfermeira "peço desculpa pai, mas tenho de o levar já para os cuidados intermédios. Depois pode lá ir ter para vê-lo. A sua mulher está a recuperar da anestesia e já a pode ver daqui a um pouco. Aguarde só um pouco". E seguiu com o meu filho pelo corredor a caminho da Unidade de Cuidados Intermédios. Fico ali. Os sacos e eu com lágrimas nos olhos. Ao que passados uns 5 minutos aparece uma enfermeira à porta com a minha mulher deitada numa maca. Vou direito a ela, dou-lhe um beijo e digo-lhe que a amo. Que é a mulher mais corajosa que conheço. E que correu tudo bem e que já vi o nosso filho. Ela ainda com a moca da anestesia geral, pergunta-me onde ele está. Eu explico-lhe que foi para a UC Intermédios mas que está tudo bem. Ela pergunta-me se ele é bonito. Eu digo-lhe que é de certa forma parecido comigo. Ela grita "O MEU FILHO É LINDO" a chorar e ainda drogada. A enfermeira interrompe dizendo que a tem de a levar para a sala de recuperação, que ela ainda está muito fraca. Tinha perdido muito sangue e ainda estava a sair do efeito da anestesia geral. E enquanto a enfermeira empurra a maca pelo corredor fora vou ouvindo a minha mulher a gritar pelo hospital "O MEU FILHO É LINDO". Já tinha virado a esquina no fundo do corredor e eu ainda a ouvia. Foi das cenas mais lindas e hilariantes que vi na minha vida.

Vou a correr com os sacos atrás, direto para a UC Intermédios. Quando chego lá, já o meu filho estava na incubadora. Tubo no nariz, a dormir de barriga para baixo. E tirei-lhe a primeira foto. Fico ali. Apaixonado a olhar para ele. Cara grudada no vidro da incubadora como os putos fazem quando vão ao Oceanário.

Nota. As primeiras fotos na Unidade de Cuidados Intermédios




Entretanto a minha mulher recuperava da cirurgia e da anestesia geral. Tinha perdida muito sangue e portanto estava muito fraca. Só 6 horas depois é que teve autorização para ser levada de cadeira de rodas para ver o nosso filho pela 1ª vez. 6 horas depois ainda não tinha conhecido o filho. Lá foi ela no seu primeiro date com o Santiago. Não posso sequer imaginar o que sentia a caminho dos cuidados intermédios nem o que sentiu quando o viu pela primeira vez, sem poder agarrá-lo ou abraçá-lo. Ela já me tentou explicar. Mas faltam-lhe as palavras. Porque acho que não devem ter sido ainda inventadas. A meio da visita desmaiou. Estava ainda muito fraca. E foi levada de volta para a sala de recobro. No dia seguinte chego à MAC, bom dia e tal e vou direto à UC Intermédios. Chego lá e peço para ver o meu filho. A auxiliar vai à incubadora do meu filho e diz que ele já não está lá. Que tinha sido transferido para a UCI (Unidade de Cuidados Intensivos). Foi um soco no estômago. Perguntei o que se tinha passado. Ele diz que a médica já fala comigo. Então parece que os pulmões ainda estavam pouco maduros e não conseguia manter a respiração sem ajuda. Além disso, o peso dele tinha descido substancialmente porque ele não comia. Fui vê-lo à UCI. A UCI da MAC é incrível. Moderna e com uma apertada vigilância e monitorização 24 horas por dia. E lá estava ele. Todo entubado. Atado para não se mexer. Máscara de oxigénio na cara. Tubos no nariz e na boca. Sensores colados por todo o corpo. Agulhas espetadas nos braços minúsculos. Alimentado por um tubo pelo umbigo. Ainda hoje o meu coração aperta cada vez que me lembro do meu filho tão pequeno assim naquele estado. E eu sem poder fazer nada. O sentimento de impotência é avassalador. É contranatura. Então para colmatar a minha impotência, enchi o peito de fé, esperança e amor. E era o que eu lhe trazia todos os dias. Todos os dias lhe falava e dizia que tinha muito orgulho nele. Que ele era a pessoa mais corajosa do mundo. Que era o mais forte. E que eu e a mãe estaríamos sempre lá para ele. Tudo isto ao som dos beep-beep do monitores e do swoosh-swoosh do ventilador que lhe dava o oxigénio para ele respirar. Odiava aqueles sons. Ainda hoje quando os ouço só me lembro disso. Eu tornei-me especialista em ler valores nos monitores. Sentava-me lá ao lado e ficava a olhar ora para ele ora para os valores do monitor. Cada vez que os valores de O2 passavam abaixo de determinado limite que para mim era razoável, lá estava eu a chamar a médica. Fiz marcação cerrada à puta daquela máquina. E assim formam os dias seguintes.

Nota. Fotos da estadia nos UCI





Passados uns dias a minha mulher teve alta. Finalmente. Depois de semanas a fio internada podia sair. Quando entrou era verão. Fazia calor. E agora que ia sair, já o frio apertava. Mas ela pouco saboreou a saída. Porque o nosso filho ia ter de ficar. E já é difícil imaginar o que será para uma mãe ter um filho, completamente anestesiada, sem assitir a nada, ficar sem ele sem nunca o ter visto depois de ele ter nascido durante 6 horas. O difícil que será ficar acamada num quarto rodeada de mães com os seus filhos recém-nascidos ao colo e ela ali sozinha com o filho enfiado numa incubadora enrolado em tubos na UCI. Mas ter de sair daquele hospital e deixá-lo ali.... Voltar para casa sozinha comigo sem o nosso filho. Foi tremendo. Nunca vou esquecer os olhos dela enquanto voltávamos para casa. Há pouco tempo vi um video de um caso mais ou menos idêntico ao nosso, e há uma parte em que o marido filma os olhos da mulher quando voltam para casa sem o filho. E eu revi aquela cena exatamente.

E a nossa rotina continuava. Casa-MAC-casa. Tirei os dias a que tinha direito e passava os dias lá com minha mulher. Entretanto ele começa a melhorar. Começa a ganhar cada vez mais força e peso. E é finalmente transferido novamente para a UC Intermédios. E aqui fica durante mais alguns dias.

Nota. As fotos do regresso à Unidade de Cuidados Intermédios.




Passados alguns dias, ele é transferido para o Berçário. Acabou-se a incubadora. Acabaram-se os tubos, máquinas e monitores. Já tinha ganho peso e força suficientes para estar finalmente com os outros bebés. Antes ainda vi uma enfermeira tentar lhe tirar sangue para análises. Mas não encontrava a veia. Espetou-o em 4 sítios diferentes nos braços sem sucesso. Teve de lhe tirar o sangue pelo pé. Cada vez que ela espetava a agulha o meu coração rasgava. Mas estes putos são qualquer coisa de extraordinário. Incrível a resiliência e força deles. São mesmo uma força da natureza.

Agora já no Berçário as rotinas eram outras. Banhos já eram dados pela mãe (eu não dava porque adorava ver  a felicidade e amor estampados no rosto da minha mulher ao lavar o filho num recepiente do tamanho de um tupperware). O leite também já era dado pela mãe. Aconchego e colo. Palmadinha nas costas para o arroto da praxe. Tudo a que tinha direito. E assim foi até dia 15 de novembro. 20 dias depois de ter nascido. Conseguiu chegar ao peso mínimo aceitável para ter alta e foi o 1º dia que o levámos para nossa casa. O entusiasmo de levarmos a mala com a primeira roupinha que ele ia usar é difícil de pôr em palavras. Nunca vou esquecer a cara da minha mulher a fazer-lhe a mala. Foi um dos dias mais felizes das nossas vidas. Estava um frio de rachar lembro-me. Mas o calor que trazíamos no nosso peito era suficiente para aquecer toda a Lisboa.

E assim se fez um filho em 3 passos difíceis. Foi uma aventura do caraças. Um carrocel de emoções. Uma monumental tareia emocional. Podia ter sido muito pior é certo. E todos os dias agradeço a sorte e felicidade de ter corrido como correu. Todos os dias sinto-me abençoado. E sei que Deus esteve do nosso lado. A cada passo. Se podia ter sido mais fácil? Podia. Mas não era a mesma coisa.

E agora que estive a relembrar e a recontar toda esta história, quero agradecer:
  • a toda a equipa da MAC (médicos, enfermeiros, auxiliares e seguranças) que foram a nossa família durante aqueles meses. Aos médicos e enfermeiros por nunca terem desistido de nós nem de ninguém que lá estava.
  • às mães que lá estavam pelo apoio mútuo e pela partilha de fé, esperança, amor e histórias.
  • à minha mulher por ser a mulher mais corajosa, determinada e forte do mundo. És a melhor mãe do mundo e uma mulher do caraças. E ainda diz que passaria por tudo outra vez.
  • e ao meu filho, por nunca ter desistido, pela resiliência, pela força, por me ter ensinado o que é lutar pela vida sem nunca baixar os braços. Acho que ainda não tens bem noção, mas és o meu herói.


Só mais uma palavra à EMEL, pela multa que me deram à frente da MAC e que mesmo depois de eu ter explicado toda a situação, mostraram inflexibilidade e intransigência: ide para a puta que vos pariu. Não paguei a multa nem pago, que a esta hora já prescreveu.

06/12/2013

COMO TER UM FILHO EM 3 PASSOS DIFÍCEIS. PASSO 2: A GRAVIDEZ


A gravidez. São 9 meses. Ou 40 semanas. É uma experiência única e plena dizem algumas. Outras torcem o nariz quando se lembram do peso a mais, da dieta, dos diabetes gestacionais e dos pés inchados. Muitas fazem as aulas pré-parto. E a mala com umas mudas de roupa no dia que as contrações e dilatações começam a dar um ar da sua graça.

Para nós não foi bem assim. E assim passamos ao 2º passo de como ter um filho em 3 passos difíceis.

Passo 2: A gravidez.

As primeiras 20 semanas foram excelentes. Normais. Deu para fazer uma viagem a Veneza juntos e tudo. E ainda deu para tirar fotos giras. Até uma daquelas da praxe com as mãos a fazerem um coraçãozinho por cima do ventre. Também gostamos de ser pirosos de vez em quando.
Depois houve a hemorragia. E eu em viagem fora do país. A chamada chegou assim: "Não te preocupes. Estou internada porque tive uma hemorragia, mas está tudo bem com o bebé." Estava eu no aeroporto de Heathrow. Fui a um café, pedi uma água e mandei um ansiolítico para dentro. Depois a tortura de fazer a viagem de Londres com o telemóvel desligado. Cheguei a Lisboa, agarrei no carro e fui direto para o hospital. O diagnóstico: placenta prévia total. O prognóstico: internamento até ao nascimento do filho. Acamada. E sem se mexer durante o máximo tempo possível. Parto natural é pra esquecer. Vai ter de ser cesariana. Transferência para a MAC (Maternidade Alfredo da Costa).
E assim começou a 2ª metade da gravidez. A MAC foi a nossa casa durante os meses seguintes. Eu fazia casa-trabalho-MAC-casa sozinho todos os dias. A minha mulher acamada a tempo inteiro no hospital. Lavava-se como os gatos. E tinha arrastadeira debaixo da cama e tudo. Nível. As contrações eram monitorizadas a cada hora. E durante semanas foi assim. Saía do trabalho e ia direto para a MAC. Comprava-lhe um snickers, um croquete e uma garrafa de água de 2 litros no café e levava-lhe. Ficávamos ali na conversa até à hora de jantar. Era um dormitório para 8 camas. Estavam lá mais 7 mulheres. Todos casos idênticos. Alguns piores. Havia 2 televisões. Uma para 4 mulheres num lado do quarto. E outra para as outras 4 do outro lado do quarto. Estão a ver né. 2 TVs com 2 comandos para 8 mulheres. Todas grávidas. Era uma catástrofe à espera de acontecer. Havia mais tensão ali dentro do que na faixa da Gaza. Depois eu saía, ia comer qualquer coisa, passava no McDonalds do Saldanha e comprava-lhe um Menu Big Mac. Entrava com aquilo de surra e passava-lhe como se estivesse a visitar alguém na prisão. Deliciava-me a vê-la comer o hamburguer enquanto olhava por cima do ombro para ver se a auxiliar andava fazer a ronda. Épico. Mas depois o vazio. Sempre que chegava a hora de me ir embora. Voltar para casa sem ela e sem o meu filho não era voltar para casa. Mas assim era. Todos os dias voltava para casa mas sem voltar para casa. Até dia 27 de Outubro. Nesse dia recebo a chamada no trabalho. "Estou a ter uma hemorragia e não pára. Vão me levar para o Bloco agora. Ele vai nascer".

Nota. A última foto é do último Big Mac que ela comeu na noite antes do meu filho nascer. Vejam o prazer dela a comer. Fantástico.








22/01/2013

PLAYLIST PARA UMA TRAGÉDIA


Ontem regressei de Roma. Estive lá uns dias em trabalho e ontem regressei a Lisboa. Toda a gente sabe como é que tem estado o tempo. Ora eu até estou bem habituado a voar. Já o faço desde muito novo e o meu trabalho exige que viage sempre 3 ou 4 vezes por ano. Mas o tempo ontem não estava para brincadeiras. Antes de levantar vôo, já imaginava que ia ser um carrossel. Instalei-me bem no meu lugar e preparei-me para levar uns abanões. E assim começou. Mal levantou e já andava tudo a dançar nas cadeiras. Assim que o comandante autorizou, meti os headphones na cabeça e a minha playlist a tocar.

Costumo fazer playlists para todo o tipo de ocasiões. Mas enquanto o avião andava aos saltos pelo ar, comecei a pensar que não tinha uma playlist para o caso do avião se despenhar. E pensei que precisava de uma música para a ocasião. Uma que me acompanhasse durante uma queda. Porque não estou para ouvir os gritos de pânico das pessoas (incluindo os meus) durante os meus últimos minutos de vida. Já que um gajo vai, pelo menos que esteja a ouvir alguma coisa de jeito. E portanto comecei a passar a pente fino a biblioteca de música do meu smartphone à procura daquela música. A que me acompanharia no derradeiro encontro com o chão a 30.000 pés de altitude. Excluí logo as bandas indie da moda. Tipo Bon Iver ou Beach House. São muito metafóricas e ambíguas. Exigem muita atenção e análise, e com um avião a caír a 900 km/hora, não ia dar tempo. Músicos tipo Jeff Buckley e Ray LaMontagne também não ia dar. Demasiado românticos para a ocasião. Para ser boa, tem de ser uma música épica. Com um tom dramático, carregada de significado mas fácil e rápida de entender, pensei eu. Isso mesmo. Épica e simples. Punk não dá. É simples mas falta-lhe o épico. Para além do mais, só me deixaria ainda mais com os nervos em franja. E normalmente as músicas punk são muito curtas. Arriscava-me que a música acabasse antes do avião bater e que eu andasse feito maluco à procura de outra à pressa. Jazz também não. É muito caótico e para caos já basta a cena que eu imagino ser o interior de um avião em queda. Grunge seja Nirvana ou Pearl Jam também não dava. Faz-me lembrar demasiadas coisas da minha juventude que eu quero esquecer, tipo o meu cabelo.

A meu ver, identifiquei 2 tipos de música que poderiam dar. Classic rock ou hard rock. Têm a fórmula perfeita. Normalmente são épicas, com refrões intensos e grandiosos, batidas poderosas e levam sempre com o solozinho de guitarra da praxe pelo meio. É isso. E trazem sempre uma mensagem qualquer. O nome da música também tem de carregar significado. Pensei então no "Baby I'm Gonna Leave You" dos Led Zeppelin. Tem todos os ingredientes perfeitos. É certo que peca por ser um bocadinho longa. Mas é tão boa do princípio ao fim que mesmo que ficasse a meio, não se perdia nada. "You Ain't Seen Nothing Yet" dos Bachman Turner Overdrive sem dúvida, o refrão imbatível. "Faithfully" dos Journey também seria uma excelente opção, com aquele acorde inicial. "Blind Faith" dos Warrant é outra. "Time Stand Still" dos Rush também servia. "Wasted Years" dos Iron Maiden também podia ser opção. The Doors sem dúvida. Mas não o "The End". Essa é demasiado literal. Antes preferia o "Break On Through".

E enquanto ia passando pela biblioteca de música do telefone ainda à procura da música perfeita, cruzo-me com um vídeo que tinha gravado há uns dias. Era um vídeo do meu filho a cantar-me os parabéns (apesar do meu aniversário já ter sido em setembro, ele gosta de me cantar os parabéns todas as semanas). Aí está. Nem procurei mais. Se o avião caísse, era esta a música que eu punha nos meus headphones. Bem alta. Nada me soaria melhor do que o meu filho a cantar os parabéns a você a mim, enquanto o avião mergulhava na escuridão. No meio do caos todo só o ouviria a ele, a cantar sem música, a capella "para o menino pai, uma salva de palmas", terminado com um "Ehhhh, vivó pai", mesmo antes do impacto final. Épico. Agora deixa cá pôr o vídeo à mão, não vá o diabo tecê-las.

14/01/2013

LIÇÃO EM COMO DORMIR


Das duas uma. Ou o meu filho tem uma sorte do caraças. Ou "alguém" está constantemente a olhar por ele. Ou então as duas coisas. O meu filho tem 2 anos e já passou por umas quantas tangentes. Aquilo a que em inglês se chamam "close calls". Hoje vou falar dos maiores cagaços que já apanhei com o meu filho e que são o meu kryptonite. A minha maior fobia como pai. Os engasganços. Já foram vários. Mas este foi o primeiro.

en.gas.gan.ço
1. provocar engasgo, sufocar
2. provocar cagaço monumental em pai, de modo a que o pai passados anos ainda mastiga a comida para o filho

Estava ele em casa haviam 2 dias quando eu decidi que ele já tinha idade para dormir de barriga para cima. Especialista que sou em todos os assuntos médicos e pediátricos, cortesia da internet (obrigado mayoclinic e webmd), tenho este hábito de me pronunciar clinicamente sobre estas coisas com uma assertividade capaz de ganhar um nobel da medicina. Claro está que o míúdo, acabadinho de beber o leite e de papo para o ar como eu sugeri, bolsou a dormir e engasgou-se com o leite. Não consegue respirar durante uns segundos (que clichés à parte, mais parecem horas) e começa a ficar azul. Começamos rapidamente a bater nas costas para o ajudar, enquanto ligamos ao mesmo tempo para o INEM. Devo dizer que o INEM foi incrivelmente eficaz a dar instruções pelo telefone sobre o procedimento a ter e nunca desligaram a chamada até chegar a ambulância. E ainda bem. Porque dar palmadas nas costas de um recém nascido prematuro que pesava cerca de 2 kg também não é fácil. Como é que um gajo mede a força que deve bater? E bate onde e como, quando a minha mão ocupava toda a área da cabeça à cintura? Bato com as pontas dos dedos? Não é fácil. Os sites de mamãs e papás e titis e tatás não falam disto. Nem a webmd. Mas pronto, correu tudo bem. Desengasgou cerca de 1 minuto depois, foi levado para o Hospital (Estefânia) onde foi visto por precaução, voltámos para casa e tudo acabou bem. Ou seja, ele a ressonar serenamente toda a noite e eu a culpar-me por ser tão entendido em medicina via internet enquanto confirmava 20 em 20 segundos se ele estava a respirar. E aprendi a minha lição. Nunca deixar um bebé dormir deitado. As zebras dormem em pé e nunca vi uma zebra a engasgar-se. Mas como os bebés ainda não se conseguem pôr em pé, o ideal é colá-los à parede até ter a certeza que a papinha foi toda para baixo.

Nota. Os estudos e guidelines mais recentes dizem que os recém-nascidos devem dormir de barriga para cima, e que esta posição reduz significativamente a probabilidade de síndrome de morte súbita infantil. Dizem ainda que dormir de lado não é tão perigoso como dormir de barriga para baixo mas que ainda assim, a forma de dormir mais segura é de barriga para cima. Eu, depois desta experiência, sinceramente acho que dormir em pé seria o ideal.