Hoje em dia é difícil ter fé. É natural. Não é que hajam mais tragédias e dramas pessoais ou colectivos do que antes. Não é isso. Sempre existiram. Doenças, epidemias, guerras, mortes, separações, abandonos, abusos, torturas, pobreza. Houve sempre disso. Mas a globalização da informação dá-nos uma percepção de que o mundo está a desabar. Temos mais consciência dos abalos nas vidas de gente por este mundo fora do que alguma vez tivemos. Junta-se os nossos dramas pessoais a esses pelo mundo fora, e este quase parece um mundo com prazo de validade expirado. Difícil ter fé. Quase parece que Deus se cansou e bateu com a porta. Ou que o caos organizado do universo se desalinhou por cansaço dos iões e dos átomos. O que quero dizer é que dá a sensação que fodemos isto tudo e que agora "we're on our own". Desculpem a linguagem. É um abalo à fé. É mesmo. No meio disto tudo, tenho um filho. Com quase 4 anos. O mundo dele é mais simples. Heróis não morrem nunca. Os "maus" morrem mas estão vivos logo a seguir. Porque só são "maus" a fingir. E a morte é tipo uma sesta repentina que dura só até o herói e o "mau" se juntarem os dois à mesa com ele a lanchar. Bolachas de chocolate com iogurte. Doenças para ele chamam-se "dói-dóis" e resolvem-se com betadine e um penso colorido. Guerra nem sabe o que é. Nem nunca deve ter ouvido a palavra. Uma caveira para ele representa um pirata e não a morte. E o pirata para ele representa um tipo de pala, com barco, muitos amigos e um papagaio. Não um daqueles tipos da Somália que assaltam barcos e raptam pessoas. É mais simples o mundo dele. Ainda carregado de fé. Fé que vai ter aquele brinquedo com que sonha. Fé que vai passear, não interessa onde. Fé que vai comer frango com batatas fritas. Mesmo que que não tenha nada disso quando pede. Mas tem sempre fé. Todos os dias me pergunta se vai ter o transformer, se vai passear, se vamos comer frango, se vamos pintar a cara com a Tia Carla, se vamos andar de skate para a Quiksilver. Todos os dias. Tem fé. E nós, nós pais, aqui a balançar entre o ensinar-lhe a ter fé e o nem tudo vai ser como ele espera. Tarefa ingrata esta. E difícil pra caraças. É como dizer-lhe "tens que acreditar filho" e depois dizer-lhe "não vais ter sempre o que queres só porque acreditas". Então porque é que havemos de ter fé? Porque havemos de acreditar? Se muitas vezes não parece resultar? Num mundo a azedar, com prazo de validade quase expirado, como é que preparo o meu filho para a trampa que vai ver sem que azede ele também? E porque hei-de fazê-lo? Deve haver gente com respostas mais inteligentes e lógicas do que a minha para isto. Eu cá só tenho uma teoria. Porque milagres acontecem. Há sempre uma bala que passa ao lado. Acreditem.
Nota. O vídeo abaixo contém imagens gáficas que podem impressionar.
04/09/2014
03/09/2014
O MEDO DA ÁGUA QUE AFINAL NÃO ERA
O meu filho sempre adorou água. Anda na natação desde os 4 meses de idade. Desde muito pequeno que se habituou a ir ao mar. Com ondas, sem ondas, esteve sempre como peixe na água. Confiante e à vontade. Por isso achei estranho quando um dia chegámos à praia e ele não quis ir à água. Carregado com pranchas, fatos, baldes, regadores, pistolas de água e toda uma parafernália para quem vai viver na água durante 1 ano, viro-me para ele e pergunto-lhe "então filho, o que é que vai ser? começamos com a prancha de bodyboard?". Ao que ele me responde "não quero ir à agua"........ "Não queres o quê?" pergunto eu ainda a sorrir a achar que era uma piada. "Não quero ir à água, já disse" responde ele sem me olhar na cara. Fico em estado de choque enquanto o balde me cai de uma mão e a prancha me cai da outra. Não quer ir à água?! Espera aí. Vivemos praticamente em frente ao mar, temos mais equipamento aquático do que o filme Waterworld, pus o puto na natação desde bebé e ele agora diz-me que não quer ir à água?!
Alguma coisa não está bem. Então pensei "já sei. vou eu para dentro de água fingir que me estou a divertir à brava e ele vai ficar cheio de vontade de ir também". Durante 1 hora estive a fazer figura de parvo na praia a chapinhar, a saltar e a urrar sozinho à beira-mar com baldes do Faísca McQueen, pranchas, e mais não-sei-quê. Ele, sério e sereno, sentado na toalha a olhar para mim.
Saí da água e fui ter com ele. Perguntei-lhe "filho, porque é que não queres ir à água?". "Porque não" era a resposta dele. Sempre. Só assim. Porque não.
Durante os dias que se seguiram, simplesmente não queria entrar na água do mar e evitava-me quando lhe perguntava porquê. Desisti de insistir com ele para entrar. Mas queria saber o porquê da súbita fobia. Andei às voltas na cabeça a tentar perceber o que tinha acontecido. Teria sido alguma coisa que eu fiz? Não chegava a conclusão nenhuma. Perguntava-lhe e a resposta era sempre a mesma: "porque não quero". E depois desviava a conversa. Andei dias a fio a tentar descobrir. Até que um dia pensei que talvez não estivesse a fazer a pergunta certa. Então fiz-lhe a pergunta de modo a que ele não pudesse responder "porque não quero". Foi assim a conversa:
Eu_ "filho, posso falar contigo?"
Ele, já a adivinhar que eu ia bater na mesma tecla_ "não quero"
Eu_ "não queres ir à praia?"
Ele_ "não"
Eu_ "é porque não queres entrar no mar?"
Ele_ "sim. não quero"
Eu_ "então se não quiseres, não faz mal. só entras no mar quando quiseres, 'tá bem?"
Ele, já menos desconfiado_ "''tá. só na areia, 'tá bem?"
Eu_ "está bem. combinado. só na areia. se quiseres ir ao mar podes ir à vontade. mas se não quiseres, também não faz mal. combinado?"
Ele_ "combinado"
Eu_ "posso perguntar só uma coisa?"
Ele_ "sim"
Eu_ "o que achas que pode acontecer no mar se entrares?"
Ele_ "tubarões"
...........................
Tubarões. Claro. Porque é que eu não pensei nisso.
Duas lições a retirar da história:
- Para perceber as coisas do ponto de vista de um miúdo de 3 anos, é preciso pensar como um miúdo de 3 anos e ver o mundo através dos olhos deles.
- A t-shirt do Jaws talvez não tivesse sido boa ideia.
02/09/2014
AGORA A SÉRIO
O outro dia surgiu em conversa noutro blog a Catarina Furtado e o trabalho que ela desenvolve fora da TV.
Tenho a sorte de conhecer a Catarina Furtado e o trabalho dela já há bastantes anos. Trabalhei com ela em alguns projectos sobre população e desenvolvimento, igualdade de género e direitos humanos.
A Catarina que conheço é uma pessoa extraordinária. Cool, de uma sensibilidade, simpatia e disponibilidade incríveis. Reflecte-se no trabalho dela. É há já alguns anos embaixadora da boa-vontade da UNFPA (Fundo das Nações Unidas para a População). E hoje fundadora e presidente da Corações com Coroa, uma associação de apoio e intervenção social, sem fins lucrativos.
Pequena história. Lembro-me que quando o meu filho nasceu e estava ainda entubado nos cuidados intensivos da MAC, a Catarina foi a primeira a vê-lo (a seguir a mim e à mãe claro). Ela estava em visita à MAC para uma reportagem e encontrámo-nos lá por acaso. Já não nos víamos há alguns anos mas ela interrompeu a reportagem para me dar um abraço e entrou para ver o Santiago. Os repórteres na altura que a acompanhavam pediram para tirar uma fotografia dela connosco junto à incubadora. Mas sempre a pessoa sensível e sentindo a minha relutância, a Catarina simpaticamente pediu aos repórteres para respeitarem a nossa privacidade, que éramos amigos. Voltou a dar-nos um abraço sentido e disse-nos que ia correr tudo bem. É esta sensibilidade e simpatia que admiro tanto nela. Sensibilidade que está patente no trabalho que ela realiza junto das pessoas e das comunidades.
Se não conhecem o trabalho da associação Corações com Coroa, tirem um tempinho para conhecer. Se nunca ouviram falar na UNFPA, tirem um tempinho para saber o que é, e o que faz. Porque ainda morrem mulheres todos os dias por complicações do parto. Ainda há casamentos forçados e precoces. Meninas forçadas a casar. Meninas a sofrerem mutilação genital. Meninas forçadas a abandonar a escola. Já é tempo de mudar isto de uma vez por todas.
Como diz a Catarina "apoiar uma mulher é apoiar uma família, uma comunidade, um país".
Nota. obrigado à Alice Frade e à Catarina Furtado pelo trabalho que desenvolveram e desenvolvem. Foi sempre um prazer e honra trabalhar convosco. Aprendi e cresci convosco. Espero sempre fazer a diferença para melhor. E passo ao meu filho o mesmo.
18/07/2014
O MUNDO É COMO O VEMOS {NÃO COMO ALGUNS O QUEREM MOSTRAR}
As capas dos jornais Correio da Manhã e Diário de Notícias enojaram-me hoje. Não tanto pelos corpos que estão ali atirados depois da tragédia de ontem com o avião da Malaysia Airlines. Mas pela falta de respeito às pessoas que ali jazem. Pela falta de respeito aos familiares e amigos. Pela falta de respeito à humanidade. À humanidade. Conceito que estes jornais claramente não conhecem. Aparentemente vale tudo para estes jornais venderem. E para mim, só uma mente podre e doentia seria capaz de aprovar esse tipo de imagem para dar conta da notícia. Os jornais Público e Jornal de Notícias também fazem da notícia capa de jornal e não tiveram de recorrer a uma estratégia doentia. Escolheram fotos que retratam a tragédia sem exporem corpos contorcidos no meio de metal dobrado. Nota-se pelo menos alguma sensibilidade na escolha das capas que vão estar expostas aos olhares de todos, crianças inclusive.
Para mim, isto é o suficiente para não querer nunca mais agarrar num jornal daqueles. Não que o fizesse antes. Nunca me identifiquei com o tipo de jornalismo do Correio da Manhã. Já do Diário de Notícias, esperava melhor. Enfim, é o que é. Neste caso lixo.
E é no meio de uma sociedade destas que tentamos educar os nossos filhos e filhas. Ninguém disse que seria fácil. E já sabíamos para o que vinham quando decidimos ter filhos. Uma sociedade onde se formam filas de trânsito intermináveis só para se abrandar na tentativa de ver melhor um acidente de automóvel, e quem sabe ver um corpo estendido. Uma sociedade que pára para ver uma discussão ou uma briga sem no entanto tentarem impedir ou pacificar. Uma sociedade que aplaude um homicida que andou fugido não-sei-quanto tempo. Uma sociedade que enche o facebook de lixo deprimente. Uma sociedade que instiga ao ódio, ao racismo, à discriminação, à estigmatização. Entre povos, entre países, entre pessoas. Entre homens e mulheres. Uma sociedade sádica, doentia e cruel.
Felizmente, gosto de pensar que são nuances da sociedade. A excepção à regra. Gosto de pensar que a sociedade tem para oferecer e oferece muito mais coisas boas do que isto. Há muito mais jornais competentes com gente sã do que jornais incompetentes com gente doentia. Há muito mais videos bons de gente incrível e feitos maravilhosos na web do que videos de decapitações e suicídios em directo. Encontro notícias e vídeos incríveis todos os dias. Que me dão orgulho de viver neste planeta. De ser um ser humano. E de nunca me arrepender ou me culpabilizar por ter trazido o meu filho a este mundo.
Para mim, isto é o suficiente para não querer nunca mais agarrar num jornal daqueles. Não que o fizesse antes. Nunca me identifiquei com o tipo de jornalismo do Correio da Manhã. Já do Diário de Notícias, esperava melhor. Enfim, é o que é. Neste caso lixo.
E é no meio de uma sociedade destas que tentamos educar os nossos filhos e filhas. Ninguém disse que seria fácil. E já sabíamos para o que vinham quando decidimos ter filhos. Uma sociedade onde se formam filas de trânsito intermináveis só para se abrandar na tentativa de ver melhor um acidente de automóvel, e quem sabe ver um corpo estendido. Uma sociedade que pára para ver uma discussão ou uma briga sem no entanto tentarem impedir ou pacificar. Uma sociedade que aplaude um homicida que andou fugido não-sei-quanto tempo. Uma sociedade que enche o facebook de lixo deprimente. Uma sociedade que instiga ao ódio, ao racismo, à discriminação, à estigmatização. Entre povos, entre países, entre pessoas. Entre homens e mulheres. Uma sociedade sádica, doentia e cruel.
Felizmente, gosto de pensar que são nuances da sociedade. A excepção à regra. Gosto de pensar que a sociedade tem para oferecer e oferece muito mais coisas boas do que isto. Há muito mais jornais competentes com gente sã do que jornais incompetentes com gente doentia. Há muito mais videos bons de gente incrível e feitos maravilhosos na web do que videos de decapitações e suicídios em directo. Encontro notícias e vídeos incríveis todos os dias. Que me dão orgulho de viver neste planeta. De ser um ser humano. E de nunca me arrepender ou me culpabilizar por ter trazido o meu filho a este mundo.
14/07/2014
04/07/2014
KEEP ON PUSHIN'
Já falei uma vez sobre isto. E agora o Ricki Bedenbaugh realizou um video. Assim somos nós. Nesta família anda-se sempre para a frente. No matter what. We keep on pushin'.
01/07/2014
BATE BATE CORAÇÃO {MAS COM CALMA}
A propósito do último post...
Fui ao cardiologista. Especialista em arritmologia. Um extraordinário médico. Viu os meus exames todos. ECG's, análises, ecocardiograma e prova de esforço. Tudo óptimo. Explicou-me tudo com detalhe e pormenor. Fez questão que eu só saísse de lá sem qualquer dúvida. Não há muitos médicos assim. E é pena. Porque é assim que deviam ser todos. Não se apressou nem me apressou na consulta. Foi-me tranquilizando. Quando ficava muito tempo a analisar algum exame, percebia que eu ficava em estado de alerta e dizia-me "não se preocupe, está tudo normal. Estou só a ver o detalhe". Fazia-me perguntas. Dava-me respostas. E deixava-me que lhe perguntasse tudo.
Resultado, parece que tenho uma Taquicardia Paroxística Supraventricular. Uma espécie de curto circuito que acontece no meu coração em que o "sistema eléctrico" do coração sobrepõe um impulso adicional para ele bater. Quando isso acontece o meu coração "salta" um batimento. E às vezes, esse "saltar" do batimento desencadeia uma sequência repetitiva de batimentos em cadeia a alta velocidade. Por isso o meu coração pode a qualquer momento passar de 60 BPM a 160 BPM. A boa notícia é que apesar de assustador e aflitivo não é normalmente perigoso ou mortal em corações saudáveis e com estrutura normal. Que é o caso do meu. Entretanto o cardiologista ensinou-me alguns truques para interromper esse curto-circuito e acalmar o coração quando isso acontece. São duas. Uma é suster a respiração e fazer força como se fosse evacuar. A outra é pôr os dedos na boca e causar um "gag reflex" que é aquele reflexo de quem vai vomitar. Portanto se me virem na rua e parecer que estou a "evacuar" ou a vomitar-me em pleno passeio, é só porque estou a ter uma taquicardia. No worries.
Nota: o fantástico cardiologista chama-se Dr. Manuel Nogueira da Silva e foi na CUF Descobertas. Grande médico. A fotografia da minha frequência cardíaca é através da app Instant Heart Rate para iphone.
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