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10/02/2015

EU SOU UM ESTUPOR MAS NÃO SÓ


O Kanye West é um estupor é verdade. Mas ser pai às vezes faz de nós um bocadinho menos estupores. Fui não poucas vezes um estupor. Às vezes ainda sou. Mais do que gostaria. Como bom estupor que sou, costumo ser estupor com as pessoas que mais amo. Como boa alma que sou, sinto-me na merda quando o sou. Mas quando o meu filho nasceu alguma coisa mudou dentro de mim. Não sei se acontece sempre, mas comigo aconteceu. Continuo a ser um estupor às vezes, é verdade. Às vezes para quem amo. Mas amo hoje mais e melhor. A minha família, os meus amigos e até quem não conheço. Aos que me querem mal ou não me querem nada, no hard feelings.

Olho para o meu filho e vejo nele o reflexo de quem sou hoje. E quem sou hoje devo-o muito a ele também. É como estar à frente de um espelho com outro espelho. Tenho orgulho na pessoa que ele se está a tornar. Com 4 anos tem nele um capaz emocional de longe maior que os passos que dá. Um coração enorme no corpo de um menino. É um menino que pensa nos outros. Que partilha tudo o que tem. Que ama gratuitamente. Que quando viu a prima a chorar, foi buscar o boneco preferido dele e pôs-lhe ao colo. Sem dizer nada. Um menino que quando caí e desloquei o braço à frente dele, veio a correr para tentar me pôr o ombro no lugar. Um menino que se zanga quando vê alguém fazer mal a um animal, mesmo que seja um peluche. E hoje quando me estava a vestir com um só braço, depois de eu vestir a camisa ele veio junto de mim e sem dizer nada, começou a tentar abotoar-me os botões. Baixei-me e dei-lhe um abraço. Sim às vezes sou estupor. Às vezes para quem mais amo. Mas como diz o Kanye West na música "Only One", não sou perfeito mas sou mais do que os meus erros. E foi isso que vi hoje no meu filho quando ele lutava com o botão, na tentativa de me abotoar a camisa por eu estar com o braço imobilizado. Vi-me como mais do que os meus erros. Porque alguma coisa devo estar a fazer bem. Para ter um filho assim.



* Only One foi escrito pelo Kanye West que é um estupor, mas que conseguiu escrever isto na perspectiva da mãe que já morreu, a olhar para ele e a falar com a filha através dele. Uma ode à paz interior.

Nota. Tem a participação do Paul McCartney nas teclas e na composição. O vídeo é realizado pelo Spike Jonze.

22/12/2014

SÃO ASSIM OS AMIGOS




Ele_ "Pai, o Rodrigo não é o meu amigo."

Eu_ " Porquê? O que é que ele fez?"

Ele_ "Nada. Não me empresta o transformer".

Eu_ "Filho. Os teus maiores amigos na vida não vão ser aqueles que te emprestam o transformer. Vão ser aqueles que te ajudam a arranjar um para ti. E que vão saltar e cantar contigo quando conseguires. Vão ser aqueles que te abrem a porta sem nunca fazerem contas ou perguntar porquê. Os que te dão um abraço sem estarem bêbados. Os que não têm medo de dizer não quando não é não. Os que dizem sim quando sim é sim. Os que riem contigo até chorar e os que choram contigo até rir. Os teus amigos vão ser os maiores. Vão saber calar-se quando não precisares de ouvir mais nada. E vão gritar por ti quando ganhares. Vão estar sempre lá mesmo quando não estão. São assim os amigos. Percebes? Ainda achas que o Rodrigo não é teu amigo?

Ele {depois de uns segundos em silêncio}_ "Sei lá".

Eu_ "Vais saber filho."




BEST & WORST OF 2014 {MENSAGENS}

Mais uma lista. Desta vez as melhores mensagens trocadas com a minha mulher este ano. Vou já avisando que por vezes a linguagem não é a melhor, a escrita é new age e a etiquette não tem lugar aqui. Portanto para todos e todas vocês que apreciam casais com elevado grau de cordialidade e formalidade entre eles, nós somos um casal a evitar e estas conversas são simplesmente estúpidas.



  • Aquela vez que a minha mulher chamou-me "querida" depois de ter dito que tinha estado com outra técnica a resolver berbicachos. E eu fiquei com a pulga atrás da orelha.




  • Aquela vez que a minha mulher me mandou 2 ou 3 videos de músicas do Fábio Jr.




  • Aquela vez que descobrimos por acaso a Xana Toc-Toc no facebook.




  • Aquela vez que disse a palavra "tonhé" e deu lugar a uma reflexão profunda.




  • Aquela vez que estava aflito para ir ao WC fazer nº 2 e quando volto informo a minha mulher e ela pergunta-me sobre a tonalidade.




  • Aquela vez que ela fez anos e eu disse-lhe para escolher onde queria ir almoçar.




  • Aquela vez que já nem me lembro do que é que estávamos a falar, mas que visto agora parece ter tido um desfecho interessante.




  • Aquela vez que a minha mulher farta de ouvir kizomba todos os dias a toda a hora, pede ao Pai Natal um presente especial.


12/05/2014

QUEM É QUE QUER IR VIVER SOZINHO


Quando as pessoas me diziam "eles crescem tão depressa", não estavam a brincar. É que crescem mesmo. Ainda a semana passada dizia à minha mulher "vou ter saudades do miúdo nesta idade". Uma semana depois confirma-se. Tenho saudades de quando o meu filho era criança. É que agora com 3 anos e meio está já em plena adolescência. Tudo começou com a atitude de se fechar no quarto quando lhe chamo a atenção. E culminou esta semana com a seguinte conversa:

Eu_ "filho, ouviste a mãe? não voltas a fazer isso senão ficas de castigo, percebeste?"

Ele_ "Já não vou viver mais com vocês!" [vira as costas, braços cruzados e vai em direcção ao quarto]

Eu, com vontade de rir, mas sem me descoser_ "Não queres viver mais connosco? Então vais viver com quem?"

Ele, cheio de atitude e certeza_ "vou viver só-zinho".

Queres ir viver sozinho? Deixa cá ver:
  • fins-de-semana livres
  • noites descansadas em que durmo pelo menos 7 horas seguidas
  • sexo noutros sítios da casa sem ser na despensa. e sem interrupções
  • programas de televisão que não envolvam dinossauros híbridos, tartarugas mutantes ou monstros felizes
  • saídas à noite, concertos, cinema, jantaradas
  • comer uma refeição em paz sem nos levantarmos 10 vezes, sem dizer a palavra "come" 20 vezes, e sem apanhar metade da comida do chão.
  • abrir o frigorífico e tirar uma fatia de queijo ou presunto sem ser às escondidas
  • comer cajus sem ter de enfiar tudo na boca para ele não ver e pedir também
  • andar de carro sem ter de ouvir as mesmas músicas até à exaustão
  • andar de carro e poder dizer f#$a-se à vontade
  • tomar um duche sem ter alguém a defecar ao mesmo tempo e a dizer "já está"
  • conseguir sentar-me na sanita sem que entrem pelo WC adentro com uma bola e a chutem a 50 cm de mim direito à minha cara
  • dormir um sesta no sofá. sem ser em cima de animais extintos de plástico com chifres
  • andar descalço em casa sem espetar os pés em animais extintos de plástico com chifres
  • nunca mais ver animais extintos de plástico com chifres
Queres ir viver sozinho? Vamos procurar casa. Eu ajudo-te.

07/04/2014

UM HERÓI CONSEGUE QUALQUER COISA


Desde que comecei este blog, tenho tentado ser o mais honesto possível. Nos meus pontos de vista. Nas histórias que escrevo. Aquilo que sou como pai está aqui reflectido.

E apesar de receber grandes elogios à minha maneira de ser pai, a verdade é que estou longe de tomar sempre as decisões mais acertadas. Longe de ser o pai perfeito, se é que isso existe. Sou muitas vezes um bom exemlpo para o meu filho, mas sou outras tantas um modelo a evitar. Afinal de contas sou humano. Ao contrário do que o meu filho acredita. Tenho arestas a limar e mais não sei quê. Limitações.

Mas a verdade é que adoro o meu filho. À partida é o que se espera de um pai. Mas olho para ele não só como meu filho. Biologicamente falando. Olho também como uma pessoa que admiro. Que respeito. Com quem aprendo. Com quem partilho. Um amigo. Um melhor amigo. Olho para ele como um herói de carne e osso. Olho para ele como alguém que juramos ser capaz de mudar o mundo, como já disse uma vez. E não é no sentido que é isso que espero dele. Como os pais que esperam que os filhos sejam perfeitos e exigem deles o inexigível. Nada disso. É no sentido que é isso que acredito. Uma fé um pouco ingénua movida por uma admiração incondiconal. O amor que tenho por ele é o que modera essa fé. O que quero dizer é que eu enquanto pai acho que o meu filho é capaz de tudo. Mas não é por isso que vou exigir dele tudo.

O contrário também é mais ou menos verdade. Já percebi que para o meu filho de 3 anos eu sou capaz de tudo. Sou o herói de carne e osso. A pessoa capaz de mudar o mundo. De tal forma que uma das coisas que ele me diz com frequência é "pai, quero qualquer coisa". Juro. Ele diz-me isto assim. Quero qualquer coisa. Pronto. Acha que eu sou capaz de saber o que é qualquer coisa. E que sou capaz de lhe dar qualquer coisa quando ele quer. Eu pergunto-lhe o que é qualquer coisa. Ele responde simplesmente "qualquer coisa pai". Como quem diz, "vá, desenmerda-te. tu és o meu pai. eu sei que consegues".
Acha que eu tenho tantos poderes, que me pede para passar à frente os anúncios de TV quando quer continuar a ver um programa. Não é fácil explicar-lhe que não consigo. Que temos de esperar.
Acha que sou capaz de fazer parar a chuva para irmos para a rua andar de skate.
Que sou capaz de fazer andar o carro quando estamos presos no trânsito.
Mas aos poucos ele começa a perceber que também não pode exigir de mim tudo. Que sou humano. É assim a vida. As tais limitações. Arestas a limar. Seja como fôr, e apesar de conhecermos as limitações um do outro (eu mais as dele do que ele as minhas), continuamos a jurar que somos capazes de mudar o mundo. Continuamos a olhar um para o outro como heróis. Eu cá não tenho dúvidas. Sei porque já o vi a mudar o mundo. O meu.

20/03/2014

SIMPLES


Já lá vai. O dia do pai. Foi ontem. Ao contrário de muita gente e igual a tanta outra, eu cá gosto dos dias simbólicos. É mais que óbvio que continuo a ser pai hoje. Como fui ontem e como serei amanhã. Um dia simbólico não quer dizer que nos esquecemos das causas ou de quem somos no resto dos dias do ano. Simplesmente acho que são porreiros. Só isso. Simples. E porquê complicar? E o melhor do meu dia ontem foi isto. Fazer um avião de papel com o meu filho e vê-lo a lançar o avião para o ar. Simples. Porquê complicar?

19/03/2014

DIÁRIO DE UM EX-LÍDER


Já não escrevia há algum tempo. Tenho andado ocupado. A tentar sobreviver. Eu explico:

Vamos imaginar a minha casa como um território. Um Estado soberano. Eu sou o governo desse território. Governo em coligação. Tenho sido nos últimos anos um governo democrático e civilizado. Atento às necessidades das minorias, tolerante com os manifestantes, respeitador dos direitos humanos. Um governo tipo o da Suécia ou daqueles países que toda a gente admira pelas políticas incríveis que têm, mas para os quais ninguém quer ir viver por causa do frio de rachar e dos dias curtos. Adiante. Tenho sido um desses governos. A minha política da saúde é irrepreensível. Toda e qualquer necessidade é prontamente assegurada e comparticipada na totalidade. A política da educação um sucesso. As melhores escolas, equipamento, fardas, tudo comparticipado a 100%. Política de cultura, artes e lazer do melhor que há. Política do desporto e da juventude sem precedentes. Finanças e tesouraria do mais brando que há. Ninguém paga impostos, não há taxas extraordinárias. Aqui até a alimentação é oferecida. É um país do caraças este do qual eu sou governo. Sou o Banco Mundial, o FMI, o Banco Alimentar, a ONU, a Disneyland, o Comité Olímpico, a Broadway, a Universal Studios e a NASA num só. Tudo a custo zero. Este meu Estado é o paraíso. Aliás, era.
Porque tenho um raio de um anarquista em constante manifestação que conseguiu destabilizar e derrubar o poder. A seguir seguem-se excertos do meu diário enquanto ex-líder deste território que um dia chamei de Casa :

20/02/2014
Hoje pela primeira vez senti alguma instabilidade social. Sinto que há uma voz dissidente que se começa a mobilizar. Começou com a resistência a lavar os dentes. Vou tentar reunir com a parceira de coligação para tentar perceber o que podemos fazer para apaziguar a situação. Vamos ver. Estou algo apreensivo.

22/02/2014
As coisas estão a começar a piorar. Apesar das tentativas de reforma de algumas políticas, o dissidente está cada vez mais inconformado. As vozes começam a fazer-se ouvir. A resistência inicial ao lavar os dentes espalhou-se a outra áreas da vida. Já não quer comer quando é hora de comer. A não ser que sejam gomas. Nem tomar banho. Sentes-se o clima de tensão cada vez mais acentuado. Estou a ficar deveras preocupado com o rumo das coisas.

25/02/2014
Isto está muito difícil. Muito difícil mesmo. O rebelde está disposto a derrubar o poder. Disso já não tenho dúvida. Começou a afectar a coligação. Reuni hoje com a parceira de coligação e estamos discordantes nas medidas a tomar. O dissidente já não se quer sentar quando se lhe pede. Já não quer ouvir quando tentamos a via do diálogo. Cheira-me que o governo vai caír. Acho que vou ter de recorrer à força para conter um possível golpe de Estado.

27/02/2014
Hoje fui fazer uma endoscopia. Andava com azia e o médico marcou-me uma. Fiz sem anestesia. Porra que foi difícil.

28/02/2014
Hoje sofri a primeira tentativa de derrube. O dissidente mobilizou todas as suas forças e perante a ordem para recuar, avançou. Estou com medo. Consegui conter o avanço temporariamente. Mas começo a perder o controlo do Estado. O dissidente já não cumpre quaisquer ordens. Conseguiu derrubar a coligação. A minha parceira de coligação colapsou. Já me falou na vontade de pedir asilo político. Declarei Lei Marcial.

01/03/2014
O país está a ferro e fogo. Estou desesperado. Já nem à força consigo conter os avanços do dissidente. A parceira de coligação está presa no quarto às escuras. Diz que não aguenta mais. Eu também estou no limite. Acho que já é tarde para pedir a intervenção de uma força internacional. A revolução está em curso. Perdi a mão do país. Declarei Estado de Sítio.

02/03/2014
Está instalado o caos. Nada mais funciona. É salve-se quem puder. Declarei Estado de Emergência.

03/03/2014
Se estiverem a ler estas palavras, é porque não consegui resistir à última investida do dissidente. Estamos presos. Somos diariamente torturados. As técnicas são conhecidas. Privação de sono. Trabalhos forçados. Perguntas e cânticos repetidos vezes sem conta até nos quebrar psicologicamente. Que Deus esteja connosco.

15/03/2014
Consegui tomar como reféns os Dinofroz. Quem diria que aqueles dinossauros minúsculos seriam tão importantes para o rebelde. Vejo aqui forte possibilidade de retomar o poder. Se ao menos eu pudesse encontrar a parceira de coligação. Ah está ali: "- Mulher, sai debaixo da cama. Tenho aqui os Dinofroz e disse-lhe que os queimava se ele não se portasse bem. O poder é nosso novamente".


14/02/2014

A LOVER'S DAY


Dia especial hoje. Acordei às 5 da manhã. Para preparar um pequeno-almoço especial à minha mulher? Não. Porque adormeci ontem às nove e meia da noite. Porquê? Porque estava de rastos e a ver o filme Alice no País das Maravilhas pela centésima vez com o meu filho. Adormecemos os dois alapados no sofá enquanto a mãe metia a louça do jantar na máquina. Segundo consta, a minha mulher pegou no meu filho ao colo e foi deitá-lo na cama. Fez o mesmo comigo? Não. Deixou-me babado e torcido no sofá. Acordei à meia-noite com uma tartaruga ninja enfiada no ouvido e o dragão Godzilla enfiado nas costas e arrastei-me para a cama. Antes passo no quarto do meu filho para o aconchegar e piso a chave de fendas de brincar que ele deixou no meio do chão do quarto. Vou para o meu quarto a coxear. Deito-me. Às 4h30 da manhã, aparece o meu filho no quarto para me pôr a andar dali para fora. Sobe por cima de mim e mete-se no meio de mim e da mãe e foi me empurrando com os pés até eu estar a dormir no tapete do chão. Como eram 5 da manhã, já não me apeteceu dormir mais. Levantei-me. Fui acordar o meu cão e fomos até à praia. Apanhei chuva e vento o tempo todo. Muita. Estivemos lá 1 hora. Cheguei a casa eram 6h30. A minha mulher levantou-se e perguntou-me se estava tudo bem. Se eu sabia que horas eram. "Sim. Sei." Arrasto-me para o duche. Tomo banho e quando acabo já o meu filho está acordado e aos saltos no sofá. Tanta energia logo de manhã. Pede-me para pôr o filme da Alice. Às 7 da manhã. Outra vez. Enquanto estou a comer um iogurte natural sem açucar, digo à minha mulher "parece que hoje é dia dos namorados". Ela responde "E...?" Eu digo-lhe "e não tenho flores para te dar, mas mais logo dou-te uma coisa melhor" e dou-lhe uma apalpadela no derrière seguido de uma piscadela de olho enquanto saio da cozinha lentamente. Sem classe nenhuma. {em casa somos uns bimbos e mandamos piropos ordinários um ao outro} Saímos de casa e fazemos a rotina de sempre. Escola do miúdo, café e trabalho. Bebo café com ela depois de deixar o miúdo na escola e quando nos despedimos deseja-me um bom dia. Com o olhar de sempre. Aquele olhar que lhe conheço há já uns anos. Aquele olhar "se te apanho a jeito". Business as usual.

Então o que tem de especial o dia de hoje? Dormi menos que o habitual. E estou cansado comó raio. Mas ainda assim, mais logo não lhe vou dar flores.

Happy lover's day. Happy lovin'.

31/01/2014

"ESCOLHE UM IOGURTE"


- "Filho, vens com o pai?"
 - "Siiiiim"

É a resposta sempre que vou às compras agora. Comecei a levar o meu filho às compras comigo. Vamos os dois. Achei que seria boa ideia. Assim juntava o útil ao agradável. Fazia as compras, passávamos tempo juntos e ainda o ensinava umas coisas.
Se eu já demorava a fazer compras antes, agora isto tornou-se numa epopeia. Saímos e vamos direito ao hipermercado. Pelo caminho espeto com o CD dos Clash. O dos Ramones ardeu juntamente com o meu último carro. Cantamos pelo caminho. Chegamos e estacionamos. Dou-lhe uma moeda, pego-o ao colo e deixo-o destrancar o carrinho de compras. Meto-o lá dentro e aí vamos nós. Ele leva a lista na mão. Olho para ele no carrinho e parece um comandante na proa de um veleiro. Primeiro vamos à secção dos brinquedos. Despachar o assunto. Deixá-lo mexer em tudo. Depois de agarrar em todos os brinquedos e de os estudar meticulosamente, volta a metê-los nas prateleiras. Sem birras nem choros. Nisso sempre foi assim. Sou capaz de o levar ao Toys R'Us e sair de lá sem lhe comprar nada sem stress nenhum (só aconteceu uma vez na loja da Disney mas não quero falar sobre isso). Adiante. Depois da secção de brinquedos, vamos ao que aqui viemos. Vamos direito à secção de frutas e legumes. Lá ensino-o a escolher, ao mesmo tempo que lhe ensino os nomes e as cores. Courgettes, cenouras, alho francês, tomates. Morangos, bananas, laranjas, maçãs. Deixo-o pôr nos sacos. Ele adora. É metódico e exigente a escolher fruta e vegetais. Agarra nas peças, encosta-as ao nariz e dá-lhes uma snifadela. Depois de cheirar, lambe-as para perceber o sabor. Não se preocupem. A gente leva todas as que ele lambe. E quanto aos micróbios que possam estar na fruta, esses não têm hipóteses. No worries. Depois vamos à carne e ao peixe. Na peixaria, vou-lhe mostrando os peixes todos em exposição. Vou-lhe ensinando os nomes. A seguir vamos aos iogurtes. Escolho os que quero. E depois deixo que ele escolha uns que ele queira. Normalmente já sei se ele vai gostar ou não dos que escolhe. Mas isso pouco me interessa. Levo-os na mesma. Porque quero que ele perceba que nem tudo o que parece bom é. E nem todas as escolhas que fazemos são as acertadas. E começa-se assim. Com iogurtes. Fazemos o resto das compras e vamos para a caixa. Deixo que seja ele a enfiar o cartão MB na máquina e retirá-lo. Vamos para o carro. Compras no porta-bagagens. E vamos até mais 2 supermercados, porque não faço as compras todas no mesmo. E a cena repete-se. Chegamos a casa com sentimento de dever cumprido.

Porque é que interessa isto tudo? Porque um dia vou-lhe perguntar "filho, vens com o pai?" e a resposta dele não vai ser "siiiiiim". Porque o tempo que passamos com os filhos às vezes é escasso. E temos que fazer o melhor com esse tempo. Porque pequenas lições hoje serão grandes valores amanhã. E pode se começar já hoje com iogurtes.

15/12/2013

A ENTREVISTA



A minha mulher faz anos hoje. 30 para ser mais exato. Tivemos uma noite épica de celebração ontem até às altas horas da madrugada. Mas apesar da inesquecível celebração, sinto que chegar aos 30 foi para ela um marco levemente tingido com angústia (sente que passou para a maioridade e que já não é a pita que um dia foi). Nada mais falso. E para o provar, decidi entrevistar a pessoa que mais a adora e saber o que ele tem a dizer dela. Fica aqui a entrevista.

Happy Birthday baby. And Happy Wishes.

11/12/2013

PAIXÃO COM PAIXÃO SE PAGA


Adoro ver gente apaixonada. A paixão é o que move este mundo. Estou convencido disso e não vale a pena dizerem-me o contrário porque não acredito noutra coisa. Sou teimoso. E sou por natureza uma pessoa com muita paixão. Não sei fazer as coisas doutra maneira. Sou assim em tudo. Amo de forma apaixonada. Corro de forma apaixonada. Faço surf de forma apaixonada. Escrevo de forma apaixonada. Sou pai de forma apaixonada. Discuto de forma apaixonada. Sou assim. Para o melhor e para o pior. Não acredito em meio termos. Comida insossa não me satisfaz. Gosto de tempero. Quem me conhece já sabe o que a casa gasta. Quem não me conhece não sabe o que lhe espera. É assim. Ou sopas. Que por acaso também gosto com muito tempero. Com esta paixão toda vem uma factura. Espero paixão dos outros. Sempre. Sofro apaixonadamente. Zango-me apaixonadamente. Desiludo-me apaixonadamente. Tudo para mim é um acontecimento épico. Recentemente passei por uma desilusão de dimensões épicas. Desiludi-me e entristeci-me tão apaixonadamente que ainda hoje tenho ecos disso no peito e na cabeça. Mas gosto de ser assim. Faz de mim quem sou. O meu filho é assim também. Apaixonado pelas suas coisas. Apaixonado nos seus abraços. Apaixonado nas brincadeiras. Apaixonado nas birras. Apaixonado para o melhor e para o pior. Gosto dele assim. No meio disto tudo, nós entendemo-nos. Brincamos apaixonadamente. Rimos e choramos apaixonadamente. Dançamos e cantamos apaixonadamente. Vivemos apaixonadamente. Entendemo-nos nas nossas paixões. Por isso quando me desiludi recentemente de forma épica e apaixonada e o meu filho me viu no meu drama pessoal, olhou-me nos olhos e perguntou "tás triste pai?" e de forma apaixonada abraçou-me e ficou a fazer-me uma festa no cabelo. Com 3 anos ele percebe-me. A paixão com paixão se paga.

10/12/2013

COMO TER UM FILHO EM 3 PASSOS DIFÍCEIS. PASSO 3: O PARTO E O RESTO


O parto. Ah, o parto. Hoje em dia é um evento familiar. Mãe a soprar e a fazer força enquanto agarra a mão do pai. Pai de bata hospitalar a tentar filmar o acontecimento sem desmaiar. Equipa médica concentrada mas de sorriso a ajudar o mais novo a vir cá pra fora da melhor maneira possível. Sai o bebé e colinho da mãe com ele, ainda cheio de nhanha e tudo. Mãe de lágrimas nos olhos com a sua cria deitada no peito. Pai pálido filma o momento. Ah, o parto. Nos filmes é assim. Mas sabemos bem que na vida real não rola bem desta maneira. O nosso filme então foi bem bem diferente. O que nos leva para o 3º e último passo de como ter um filho em 3 passos difíceis. O nosso filme rolou assim:

Passo 3: O parto e o resto.

Arranquei logo que recebi a chamada da minha mulher a dizer que se estava a esvair em sangue, que a equipa médica não conseguia parar a hemorragia e que tinham de tirar o meu filho já. Para salvar a sua vida e a da mãe. Estava ela com 7 meses de gravidez. 32 semanas para ser mais exato.
Estacionei no primeiro lugar que me apareceu. E caguei para o ticket de estacionamento. Não tinha tempo para a EMEL. Entro na MAC e pergunto por ela. Olho para a cama onde ela costumava estar e estava vazia. Já sem lençóis e sem nada. Uma auxiliar entrega-me dois sacos pretos enormes cheios com os pertences da vida dela na MAC. Telemóvel, roupa interior, pijamas, laptop, DVDs, garrafa de água, diário, agenda, auricular, carregadores, fotografias. Todo o "mobiliário" dos últimos meses. A auxiliar leva-me até à porta do bloco operatório onde o milagre estava a acontecer. E ali fico. À porta, sozinho, sentado, com 2 sacos pretos enormes. Ninguém mais estava lá. Só eu. E o meu coração a bater na garganta.

Até que sai uma médica pela porta. Não tinha mais de 35 anos. Ou então estava muita bem conservada. Pára e olha para mim. Tira a máscara e aproxima-se com cara séria. Eu levanto-me e ela pergunta-me "é o pai?". Eu respondo que sim, sou. Ela sem nunca tirar a poker face estica-me a mão e diz "parabéns, tem ali um belo rapaz". Confesso que me caíram as lágrimas. Ela diz-me "só um bocadinho que a enfermeira já fala consigo". E foi-se. Passado 1 minuto, saíram pela porta os restantes médicos. Eram uns 3 ou 4. Já não me lembro bem. Todos eles passaram, deram os parabéns sem parar e seguiram pelo corredor na conversa. Eu e os meus sacos ficámos ali à espera em pé, olhos fixados na porta. Ao que sai uma enfermeira com um bebé nos braços. Chega ao pé de mim e conheço o meu filho pela primeira vez. De todos os momentos mais emocionais que tive na vida, este foi sem dúvida o mais emocional. "É o seu menino" diz ela. "Parabéns pai. Correu tudo bem. Nasceu com Apgar 9, pai". Enquanto ela falava eu não tirava os olhos dele. Queria abraçá-lo mas não podia. Eu tinha acabado de vir da rua, não estava desinfetado e ele estava fragilizado com as suas 32 semanas de vida e 1,9 kg de peso. Mas os meus olhos e a minha alma abraçavam-no e não o largavam. Era tão parecido comigo que fazia impressão. Só que com menos cabelo e sem barba. Lembro-me que tive uma sensação incrível, como se me estivesse a ver a mim próprio quando nasci. Uma espécie de déjà vu. Diz a enfermeira "peço desculpa pai, mas tenho de o levar já para os cuidados intermédios. Depois pode lá ir ter para vê-lo. A sua mulher está a recuperar da anestesia e já a pode ver daqui a um pouco. Aguarde só um pouco". E seguiu com o meu filho pelo corredor a caminho da Unidade de Cuidados Intermédios. Fico ali. Os sacos e eu com lágrimas nos olhos. Ao que passados uns 5 minutos aparece uma enfermeira à porta com a minha mulher deitada numa maca. Vou direito a ela, dou-lhe um beijo e digo-lhe que a amo. Que é a mulher mais corajosa que conheço. E que correu tudo bem e que já vi o nosso filho. Ela ainda com a moca da anestesia geral, pergunta-me onde ele está. Eu explico-lhe que foi para a UC Intermédios mas que está tudo bem. Ela pergunta-me se ele é bonito. Eu digo-lhe que é de certa forma parecido comigo. Ela grita "O MEU FILHO É LINDO" a chorar e ainda drogada. A enfermeira interrompe dizendo que a tem de a levar para a sala de recuperação, que ela ainda está muito fraca. Tinha perdido muito sangue e ainda estava a sair do efeito da anestesia geral. E enquanto a enfermeira empurra a maca pelo corredor fora vou ouvindo a minha mulher a gritar pelo hospital "O MEU FILHO É LINDO". Já tinha virado a esquina no fundo do corredor e eu ainda a ouvia. Foi das cenas mais lindas e hilariantes que vi na minha vida.

Vou a correr com os sacos atrás, direto para a UC Intermédios. Quando chego lá, já o meu filho estava na incubadora. Tubo no nariz, a dormir de barriga para baixo. E tirei-lhe a primeira foto. Fico ali. Apaixonado a olhar para ele. Cara grudada no vidro da incubadora como os putos fazem quando vão ao Oceanário.

Nota. As primeiras fotos na Unidade de Cuidados Intermédios




Entretanto a minha mulher recuperava da cirurgia e da anestesia geral. Tinha perdida muito sangue e portanto estava muito fraca. Só 6 horas depois é que teve autorização para ser levada de cadeira de rodas para ver o nosso filho pela 1ª vez. 6 horas depois ainda não tinha conhecido o filho. Lá foi ela no seu primeiro date com o Santiago. Não posso sequer imaginar o que sentia a caminho dos cuidados intermédios nem o que sentiu quando o viu pela primeira vez, sem poder agarrá-lo ou abraçá-lo. Ela já me tentou explicar. Mas faltam-lhe as palavras. Porque acho que não devem ter sido ainda inventadas. A meio da visita desmaiou. Estava ainda muito fraca. E foi levada de volta para a sala de recobro. No dia seguinte chego à MAC, bom dia e tal e vou direto à UC Intermédios. Chego lá e peço para ver o meu filho. A auxiliar vai à incubadora do meu filho e diz que ele já não está lá. Que tinha sido transferido para a UCI (Unidade de Cuidados Intensivos). Foi um soco no estômago. Perguntei o que se tinha passado. Ele diz que a médica já fala comigo. Então parece que os pulmões ainda estavam pouco maduros e não conseguia manter a respiração sem ajuda. Além disso, o peso dele tinha descido substancialmente porque ele não comia. Fui vê-lo à UCI. A UCI da MAC é incrível. Moderna e com uma apertada vigilância e monitorização 24 horas por dia. E lá estava ele. Todo entubado. Atado para não se mexer. Máscara de oxigénio na cara. Tubos no nariz e na boca. Sensores colados por todo o corpo. Agulhas espetadas nos braços minúsculos. Alimentado por um tubo pelo umbigo. Ainda hoje o meu coração aperta cada vez que me lembro do meu filho tão pequeno assim naquele estado. E eu sem poder fazer nada. O sentimento de impotência é avassalador. É contranatura. Então para colmatar a minha impotência, enchi o peito de fé, esperança e amor. E era o que eu lhe trazia todos os dias. Todos os dias lhe falava e dizia que tinha muito orgulho nele. Que ele era a pessoa mais corajosa do mundo. Que era o mais forte. E que eu e a mãe estaríamos sempre lá para ele. Tudo isto ao som dos beep-beep do monitores e do swoosh-swoosh do ventilador que lhe dava o oxigénio para ele respirar. Odiava aqueles sons. Ainda hoje quando os ouço só me lembro disso. Eu tornei-me especialista em ler valores nos monitores. Sentava-me lá ao lado e ficava a olhar ora para ele ora para os valores do monitor. Cada vez que os valores de O2 passavam abaixo de determinado limite que para mim era razoável, lá estava eu a chamar a médica. Fiz marcação cerrada à puta daquela máquina. E assim formam os dias seguintes.

Nota. Fotos da estadia nos UCI





Passados uns dias a minha mulher teve alta. Finalmente. Depois de semanas a fio internada podia sair. Quando entrou era verão. Fazia calor. E agora que ia sair, já o frio apertava. Mas ela pouco saboreou a saída. Porque o nosso filho ia ter de ficar. E já é difícil imaginar o que será para uma mãe ter um filho, completamente anestesiada, sem assitir a nada, ficar sem ele sem nunca o ter visto depois de ele ter nascido durante 6 horas. O difícil que será ficar acamada num quarto rodeada de mães com os seus filhos recém-nascidos ao colo e ela ali sozinha com o filho enfiado numa incubadora enrolado em tubos na UCI. Mas ter de sair daquele hospital e deixá-lo ali.... Voltar para casa sozinha comigo sem o nosso filho. Foi tremendo. Nunca vou esquecer os olhos dela enquanto voltávamos para casa. Há pouco tempo vi um video de um caso mais ou menos idêntico ao nosso, e há uma parte em que o marido filma os olhos da mulher quando voltam para casa sem o filho. E eu revi aquela cena exatamente.

E a nossa rotina continuava. Casa-MAC-casa. Tirei os dias a que tinha direito e passava os dias lá com minha mulher. Entretanto ele começa a melhorar. Começa a ganhar cada vez mais força e peso. E é finalmente transferido novamente para a UC Intermédios. E aqui fica durante mais alguns dias.

Nota. As fotos do regresso à Unidade de Cuidados Intermédios.




Passados alguns dias, ele é transferido para o Berçário. Acabou-se a incubadora. Acabaram-se os tubos, máquinas e monitores. Já tinha ganho peso e força suficientes para estar finalmente com os outros bebés. Antes ainda vi uma enfermeira tentar lhe tirar sangue para análises. Mas não encontrava a veia. Espetou-o em 4 sítios diferentes nos braços sem sucesso. Teve de lhe tirar o sangue pelo pé. Cada vez que ela espetava a agulha o meu coração rasgava. Mas estes putos são qualquer coisa de extraordinário. Incrível a resiliência e força deles. São mesmo uma força da natureza.

Agora já no Berçário as rotinas eram outras. Banhos já eram dados pela mãe (eu não dava porque adorava ver  a felicidade e amor estampados no rosto da minha mulher ao lavar o filho num recepiente do tamanho de um tupperware). O leite também já era dado pela mãe. Aconchego e colo. Palmadinha nas costas para o arroto da praxe. Tudo a que tinha direito. E assim foi até dia 15 de novembro. 20 dias depois de ter nascido. Conseguiu chegar ao peso mínimo aceitável para ter alta e foi o 1º dia que o levámos para nossa casa. O entusiasmo de levarmos a mala com a primeira roupinha que ele ia usar é difícil de pôr em palavras. Nunca vou esquecer a cara da minha mulher a fazer-lhe a mala. Foi um dos dias mais felizes das nossas vidas. Estava um frio de rachar lembro-me. Mas o calor que trazíamos no nosso peito era suficiente para aquecer toda a Lisboa.

E assim se fez um filho em 3 passos difíceis. Foi uma aventura do caraças. Um carrocel de emoções. Uma monumental tareia emocional. Podia ter sido muito pior é certo. E todos os dias agradeço a sorte e felicidade de ter corrido como correu. Todos os dias sinto-me abençoado. E sei que Deus esteve do nosso lado. A cada passo. Se podia ter sido mais fácil? Podia. Mas não era a mesma coisa.

E agora que estive a relembrar e a recontar toda esta história, quero agradecer:
  • a toda a equipa da MAC (médicos, enfermeiros, auxiliares e seguranças) que foram a nossa família durante aqueles meses. Aos médicos e enfermeiros por nunca terem desistido de nós nem de ninguém que lá estava.
  • às mães que lá estavam pelo apoio mútuo e pela partilha de fé, esperança, amor e histórias.
  • à minha mulher por ser a mulher mais corajosa, determinada e forte do mundo. És a melhor mãe do mundo e uma mulher do caraças. E ainda diz que passaria por tudo outra vez.
  • e ao meu filho, por nunca ter desistido, pela resiliência, pela força, por me ter ensinado o que é lutar pela vida sem nunca baixar os braços. Acho que ainda não tens bem noção, mas és o meu herói.


Só mais uma palavra à EMEL, pela multa que me deram à frente da MAC e que mesmo depois de eu ter explicado toda a situação, mostraram inflexibilidade e intransigência: ide para a puta que vos pariu. Não paguei a multa nem pago, que a esta hora já prescreveu.

06/12/2013

COMO TER UM FILHO EM 3 PASSOS DIFÍCEIS. PASSO 2: A GRAVIDEZ


A gravidez. São 9 meses. Ou 40 semanas. É uma experiência única e plena dizem algumas. Outras torcem o nariz quando se lembram do peso a mais, da dieta, dos diabetes gestacionais e dos pés inchados. Muitas fazem as aulas pré-parto. E a mala com umas mudas de roupa no dia que as contrações e dilatações começam a dar um ar da sua graça.

Para nós não foi bem assim. E assim passamos ao 2º passo de como ter um filho em 3 passos difíceis.

Passo 2: A gravidez.

As primeiras 20 semanas foram excelentes. Normais. Deu para fazer uma viagem a Veneza juntos e tudo. E ainda deu para tirar fotos giras. Até uma daquelas da praxe com as mãos a fazerem um coraçãozinho por cima do ventre. Também gostamos de ser pirosos de vez em quando.
Depois houve a hemorragia. E eu em viagem fora do país. A chamada chegou assim: "Não te preocupes. Estou internada porque tive uma hemorragia, mas está tudo bem com o bebé." Estava eu no aeroporto de Heathrow. Fui a um café, pedi uma água e mandei um ansiolítico para dentro. Depois a tortura de fazer a viagem de Londres com o telemóvel desligado. Cheguei a Lisboa, agarrei no carro e fui direto para o hospital. O diagnóstico: placenta prévia total. O prognóstico: internamento até ao nascimento do filho. Acamada. E sem se mexer durante o máximo tempo possível. Parto natural é pra esquecer. Vai ter de ser cesariana. Transferência para a MAC (Maternidade Alfredo da Costa).
E assim começou a 2ª metade da gravidez. A MAC foi a nossa casa durante os meses seguintes. Eu fazia casa-trabalho-MAC-casa sozinho todos os dias. A minha mulher acamada a tempo inteiro no hospital. Lavava-se como os gatos. E tinha arrastadeira debaixo da cama e tudo. Nível. As contrações eram monitorizadas a cada hora. E durante semanas foi assim. Saía do trabalho e ia direto para a MAC. Comprava-lhe um snickers, um croquete e uma garrafa de água de 2 litros no café e levava-lhe. Ficávamos ali na conversa até à hora de jantar. Era um dormitório para 8 camas. Estavam lá mais 7 mulheres. Todos casos idênticos. Alguns piores. Havia 2 televisões. Uma para 4 mulheres num lado do quarto. E outra para as outras 4 do outro lado do quarto. Estão a ver né. 2 TVs com 2 comandos para 8 mulheres. Todas grávidas. Era uma catástrofe à espera de acontecer. Havia mais tensão ali dentro do que na faixa da Gaza. Depois eu saía, ia comer qualquer coisa, passava no McDonalds do Saldanha e comprava-lhe um Menu Big Mac. Entrava com aquilo de surra e passava-lhe como se estivesse a visitar alguém na prisão. Deliciava-me a vê-la comer o hamburguer enquanto olhava por cima do ombro para ver se a auxiliar andava fazer a ronda. Épico. Mas depois o vazio. Sempre que chegava a hora de me ir embora. Voltar para casa sem ela e sem o meu filho não era voltar para casa. Mas assim era. Todos os dias voltava para casa mas sem voltar para casa. Até dia 27 de Outubro. Nesse dia recebo a chamada no trabalho. "Estou a ter uma hemorragia e não pára. Vão me levar para o Bloco agora. Ele vai nascer".

Nota. A última foto é do último Big Mac que ela comeu na noite antes do meu filho nascer. Vejam o prazer dela a comer. Fantástico.