20/11/2014

O MELHOR DIA DO ANO


Apesar de estar com uma gripe filha da mãe, apesar do frio e da chuva, apesar do meu cão ter comido a cama que lhe comprei há 2 dias, apesar de ter que pagar 400 € numas análises para o meu filho, apesar de não ter mais férias para gozar este ano, apesar do vento on-shore, apesar disso tudo, hoje é o melhor dia do ano. É o dia nacional do pijama*. Significa isso que hoje os miúdos e as miúdas vão vestidos de pijama para a escola. Ou seja, significa isso que é só tirar o meu filho da cama tal qual está e enfiá-lo no carro. Tout court. Ah, se todas as manhãs pudessem ser assim. Não me entendam mal. Adoro a minha família. Mas o meu filho tem um acordar de m*#da. Não é só na beleza que sai à mãe. As manhãs são dramáticas. Se pudesse mais ou menos comparar, as manhãs seriam tipo aquele programa Wipeout. E uma das tarefas mais difíceis é vesti-lo. Vesti-lo é o equivalente a fazer um cubo Rubik pendurado pelos pés e com as mãos atadas atrás das costas enquanto alguém nos dá com um pau nas pernas. Envolve por vezes uma dura negociação, uma cadeira e algumas cordas. E normalmente acaba com ele no carro a chorar aos berros, a mãe com a cabeça encostada ao vidro e eu a revirar os olhos. E apesar de saber que tem de se vestir todos os dias, todos os dias é o mesmo fado. Todos os santos dias. Menos hoje. O melhor dia do ano. É que nem o acordo. É agarrar nele e enfiá-lo no carro.

*O dia nacional do pijama  (20 de Novembro) explicaram-me ser um dia solidário de crianças para crianças, sobre o direito das crianças a crescerem numa família.

10/10/2014

A MENINA QUE NÃO SE DEIXA CALAR

A Malala. Tem 17 anos e um Nobel da Paz. Uma menina a mudar o mundo desde os 12 anos. Admirável. Inspirador. E de uma coragem que devia ser exemplo para todos. Um exemplo para os que apesar da coragem, se sentem por vezes abalados na sua luta, seja ela qual fôr. Um exemplo também para os cobardes que se vergam sob o medo e a ameaça. E um exemplo para os que disparam por trás de caras tapadas e anonimato. É impossivel falar da Malala sem preceber um pouco a sua relação com o pai. Um homem que luta pelos seus ideais e como pai quer o melhor para a filha. Mesmo que às vezes isso não pareça ser o melhor para a filha. Um homem que transborda de orgulho e admiração pela filha. Uma filha que olha para o pai como um herói. Alguém que ela acredita ser capaz de mudar o mundo. Um pai que olha para a filha da mesma maneira. Alguém que ele acredita ser capaz de mudar o mundo. Este respeito, admiração e empowerment mútuos é o que diferencia os heróis do resto. Não é perfeito. São uma família e como família devem ter os seus dias. O pai há de ser chato e exigente às vezes. A filha há de ser refilona e respondona. A mãe há de ter as suas coisas e os seus dias também. Mas do respeito, da admiração e do empowerment não tenho dúvidas. Vê-se na cara dele. E na cara dela. Não os conheço. Mas já vi aqueles olhares antes. O olhar de quem acredita. O olhar de quem muda o mundo. Costumo dizer que o mundo não se muda de uma só vez. Muda-se uma pessoa de cada vez. Se pensarmos que há cerca de 7 mil milhões de pessoas no mundo, é coisa para demorar um bocadinho. Mas se houvesse mais gente com o estofo da Malala e da sua família, a coisa dava-se mais depressa. A Malala levou um tiro na cabeça quando vinha da escola. Não porque foi à escola. Mas porque há quem ache que coragem, igualdade, progresso e humanidade se matam com um tiro. Os tais cobardes que se escondem atrás de caras tapadas e anonimato. Não tenho dúvidas que o pai se deve ter sentido culpado. Em algum momento. Nem que fosse por um só segundo. Qual o pai que não teria? E isso leva-nos à "million-dollar question". Dar o peito e a cara pelo que acreditamos? Ou encolher e fugir sob medo? Qual nos salva? A Malala sabe qual.

Nota. O vídeo abaixo contém imagens gáficas que podem impressionar.

RETRATO DE UMA FEMINISTA


Casei com uma feminista.

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Se há coisa que me deixa com os nervos em franja são generalizações. Principalmente quando elas se referem aos homens e às mulheres. Sou feminista. Não tenho qualquer pudor em dizer que sou feminista. Na escola do meu filho sabem que sou feminista. No meu trabalho sabem que sou feminista. Os amigos e amigas sabem que sou feminista. Os conhecidos e conhecidas sabem que sou feminista. Eu sempre soube que sou feminista. Uso a palavra feminista muitas vezes propositadamente. Uso-a para que de uma vez por todas ela perca a conotação negativa que tem. E como feminista luto pela igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. Há uns dias li um texto intitulado de "Mãe é Mãe", onde uma senhora exponenciava o papel da mãe, passando o pai para um papel secundário. Fiquei doente! Felizmente para mim, enervo-me com estas coisas. A senhora dizia que ser pai é muito mais fácil do que ser mãe. A senhora dizia que o pai não velava o sono do bebé. A senhora dizia que o pai entrega o bebé à mãe sempre que começa a chorar. A senhora dizia que o papel do pai é muito importante, mas que mãe é mãe. 
Senti-me tão ofendida. Senti vergonha alheia. Os meus dois modelos de paternidade são inevitavelmente o meu pai e o pai do meu filho. Os pais da minha vida faziam tudo o que a senhora diz que os pais não fazem. Pasme-se. 
Mãe é tão Mãe como Pai é tão Pai! E não me venham com a história de que a gravidez e a amamentação são condições que proporcionam à partida uma relação mais próxima entre mãe e filho/a do que pai e filho/a. BullShit!!!! Nós mulheres queremos ter as mesmas oportunidades que os homens no mundo do trabalho (onde ainda hoje em Portugal as mulheres são remuneradas muito abaixo dos homens; onde ainda hoje em Portugal as mulheres não são recrutadas para um posto de trabalho porque eventualmente podem engravidar; onde ainda hoje em Portugal as mulheres acham que têm de agir como homens - seja lá o que isso for - para ascenderem a lugares de chefia). Chega caramba!! Se queremos igualdade temos de praticá-la. A igualdade só será possível quando estas mulheres que acham que "Mãe é Mãe" deixem de se fechar no seu monopólio maternal percebendo que a última coisa que faz delas mães é a biologia, a última coisa que faz de uma mãe Mãe é carregar o filho ou filha na barriga e os amamentarem. Serei eu menos mãe por ter tido uma gravidez de apenas 7 meses e ter dado de mamar uns míseros 3 meses? Não! Não mesmo! O que faz de uma mulher mãe é a relação que  constrói com os filhos e filhas, aplicando-se o mesmo aos pais. Ofendo-me. Ofendo-me quando leio estes textos e sinto uma profunda injustiça para com o meu pai e para com o pai do meu filho. Sinto que estes textos perpetuam uma parentalidade desigual. E somos nós mulheres que lhes damos voz. Nós que tanto penámos e ainda penamos por uma sociedade justa, que não olhe para nós como cidadãs de segunda, que fazemos exactamente a mesma coisa com os homens que lutam por uma sociedade que não os olhe como aves raras quando vivem a sua paternidade como uma das "tarefas" centrais da sua vida. Quase fui linchada quando num grupo de mulheres disse que não acreditava no instinto maternal. Onde é que está esse instinto quando lemos as imensas notícias de negligência, maus tratos e abandono por parte de mães para com os seus filhos e filhas. Onde? Se fosse um instinto iria sobrepor-se a tudo o resto, certo? As relações que criamos com os filhos e filhas são isso mesmo, são relações criadas, construidas, quer sejamos pai quer sejamos mãe.

Irina.

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Orgulhoso de ter uma pessoa iluminada ao meu lado e como mãe do meu filho.


07/10/2014

BLOGS I F#*KING LOVE: ISTO É CAFÉ DO BOM


Hoje o Blogs I f#*king Love é para rir. Jerry Seinfeld foi um tipo grande nos anos 90. O Papa viu e gostava da série Seinfeld e dos personagens neuróticos que por lá andavam. O meu cão também. Toda a gente via e gostava. O homem entretanto desapereceu durante uns tempos e nos últimos 2 anos tem uma série na web chamada Comedians in Cars Getting Coffee. É o Jerry Seinfeld a ir buscar um comediante amigo num carro antigo (vintage para vocês new age hipsters) para depois irem beber café. Não é bem um blog, mas é mais ou menos um blog. O que não é mais ou menos é o que se passa lá. Os meus preferidos são os Single Shots, pequenos vídeos de cerca de 2 minutos sobre um tema específico. Para quem é apreciador de café e carros e comediantes. Ou para quem simplesmente gosta de café. Ou só do Seinfeld. Ou então se quiserem começar o dia com o sorriso na cara. Ou para quem quer simplesmente abstrair da voz irritante daquele colega de trabalho que só sabe falar de futebol às Segundas de manhã aos altos berros de modo que só dá vontade de lhe espetar com uma caneca de café pelos cornos abaixo. Também dá. É clicar na foto que já vão ver.

22/09/2014

COMEÇA A GANHAR ASAS

Estes dias são os meus preferidos. Aqui faz-se história. Obrigado pelos melhores momentos da minha vida, puto.



Nota. o puto de 3 anos quase 4 a subir o quarter-pipe em alta velocidade enquanto me dá a mão é o meu filho. just saying.

17/09/2014

O QUE TU QUERES SEI EU


"pai, quero uma méspê".

Eu_ "uma quê?"

Ele_ "méspê! méspê! não sabes?"

Eu_ "não filho. não sei. é o quê?"

Ele_ "é uma coisa preta para jogar."

Eu, incrédulo, mas ainda em dúvida_ "uma PSP?"

Ele_ "sim é. uma péspê".

E começou desta forma a birra de 30 minutos até casa. Diz ele que quer uma PSP. Digo eu que nem pensar. PSP. PlayStation Portátil, não as forças de segurança. Deve estar a brincar comigo. Ao que parece, um miúdo lá da escola tem uma e levou-a. Um colega dele portanto. Um miúdo de 4 anos. Com uma PlayStation Portátil. Teria muito a dizer sobre isto. Na verdade, apeteceu-me falar no assunto na reunião de pais que tivemos na escola esta semana. Falar como à conta disso tive de levar com uma birra monumental do meu filho. Como tive de explicar a um puto de 3 anos porque é que o amigo tem uma PSP, mas que ele não pode nem vai ter uma. Como tive de ser incisivo e assertivo na minha posição intransigente de "não te vou dar nenhuma PSP". Como tive de fazer um exercício de retórica e pensamento abstracto para além do humanamente possível de forma a explicar-lhe porquê. Como por causa do amigo e da sua PSP tive um final de dia de merda e o meu filho também. Mas epá, quem sou eu para julgar os outros pais. Os pais do Zé (vamos chamar-lhe assim) também certamente não concordarão com o meu filho a andar de skate sozinho com 3 anos. Um desporto perigoso e que pode levar a que ele parta um braço ou uma perna.

A mim faz-me confusão os pais queixarem-se que os putos são muito dependentes dos jogos e dos iPads e iPhones, quando são eles que os põem nas mãos dos filhos com 3 anos. A eles deve fazer confusão eu queixar-me do meu filho se espetar em ouriços quando sou eu que o deixo andar em cima das lages no mar. Ou de me queixar da frustração dele quando não consegue alguma coisa, quando sou eu que lhe digo que ele consegue tudo se quiser. É assim. Somos todos os melhores pais do mundo. E somos todos uns pais de merda. Tive muita vontade de falar no assunto na reunião. Mas depois não o fiz. Porque isto é uma lição. O meu filho nem sempre vai ter tudo o que o amigo ou colega tem. Nem os amigos ou colegas vão ter tudo o que ele tem. Ele tem de aprender a lidar com isso. E eu tenho de aprender a conseguir explicar o inexplicável. Ou pelo menos que faça algum sentido na cabeça dele. E se eu conseguir isso com um miúdo de 3 anos, raios me partam se não vou conseguir convencer o meu chefe a dar-me um aumento e a reduzir-me a carga horária.

12/09/2014

O MEU 11 DE SETEMBRO: CRISE DE MEIA-IDADE


40 anos. Qua-ren-ta. Não sei. Parece que não soa bem. Mas já cá cheguei. Portanto tenho que me habituar ao som. Ontem fiz 40 anos. Cheguei oficialmente à meia-idade. Portanto, é tempo de crise. E para começar bem, ontem à noite enquanto tentava adormecer, pus-me a fazer uma retrospectiva da minha vida. Década a década. Cheguei à conclusão que isto tudo passa num instante. Mas apercebi-me também de uma coisa. Que a década que parece que durou mais foi a dos 10 aos 20 anos. E comecei a pensar porquê. Apercebi-me que foi a década que mais transformação e rebaldaria passei. Nem sei como é que estou vivo.

Dos 10 aos 20 anos acontece de tudo. Ciclo, liceu e faculdade tudo na mesma década. A brincadeira é com GI Joes, caricas e fisgas. Passa para pistolas, gameboys e revistas da Playboy e da gina. A puberdade. A descoberta da masturbação. Primeiras paixões assolapadas. Primeiros beijos. Primeiro baile de gala. Primeira medição com régua. Aperfeiçoamento da masturbação. Primeiras bebedeiras. Primeiro cigarro. Surf pela primeira vez. Festas de liceu. Primeiro trabalho de verão. Part-time's. Primeiros ordenados. Perda da virgindade. Primeiro desgosto de amor. Primeira relação séria com direito a conhecer os "sogros". Carta de condução. Primeiro carro, desculpem, chaço, que é preciso empurrar para pegar. Pago com os primeiros ordenados. Mentiras aos pais. Paixões de verão. Tardes com os amigos na praia. Noites com os amigos na rua. Saídas com os amigos à boleia. Chegadas a casa às 6 da manhã. Manhãs passadas na cama. One night stands. Festas académicas. Primeiro preservativo rompido. Primeiro susto com possível gravidez. Aperfeiçoamento das mentiras aos pais. Primeira vez a acampar. Primeiros concertos. Vida dividida entre 2 países. 4 cidades diferentes. Primeira crise existencial. Primeira afirmação pseudo-intelectual. Primeira porrada. Grandes amizades. Melhores amigos. Arqui-inimigos. Boas notas. Más notas. Ano chumbado. Sova levada. Primeiros livros. Primeira vez no cinema sozinho com uma miúda. Sexo no carro. Mais festas. Primeira vez a viver sozinho. Porra. É uma década que dura e dura e dura.

Dos 10 aos 20 anos é "primeiras vezes" que nunca mais acabam. As mudanças que uma pessoa passa nesses 10 anos são tão intensas e variadas que esses 10 anos mais parecem uma vida inteira. Muita asneira e muita coisa boa. Olhando bem para trás, fico impressionado como o ser humano consegue sobreviver a esses 10 anos. Somos de facto seres muito resilientes.

Agora com 40 olho para trás com o sentimento de um herói de guerra. Medalha de honra ao peito, histórias de guerra para contar, de whiskey na mão a olhar o horizonte. Fiz o que tinha que fazer. Bem ou mal, foi feito. Teria feito algumas coisas diferentes, outras faria tal qual as fiz. Houve alguns arrependimentos mas é a vida. Mas foram uns 10 anos do caraças. Acho que foram 10 bons anos mas tiveram o seu tempo e já lá vão. Assim como a juventude. Também já lá vai. O tempo agora é outro. É tempo de 40 anos. A minha mulher gosta. Diz que é sexy andar com um quarentão. Sendo assim, deixa cá ver: qua-ren-ta. Afinal soa bem.